| Nos últimos anos, em nossa cidade e no Brasil, cresceu muito
o interesse pela psicanálise, tanto na sua significação
propriamente clínica, quanto na significação
cultural.
O fenômeno é precioso, pois permite e impõe
ao discurso psicanalítico dar prova dos efeitos – ainda
incipientes – que dele podem ser esperados.
Mas se a relação íntima que J. Lacan exige
entre psicanálise em extensão e psicanálise
em intensão vier a falhar, ou seja, se o mais vivo da experiência
psicanalítica não fosse o fulcro de qualquer apresentação
da psicanálise ao mundo, este mesmo crescimento implicaria
como efeito, nada secundário, o desaparecimento simples da
psicanálise que aparentemente se difunde. Seria este, aliás,
o único efeito, pois uma psicanálise desvirtuada do
mais vivo de sua experiência não poderia pretender
produzir no mundo senão uma forma refinada da adaptação,
começando pela sua própria, às exigências
do homem da economia de mercado. O prognóstico preocupado
de Freud sobre a psicanálise nos Estados Unidos se realizou:
uma onda de difusão pagou o preço de uma incrível
deteriorização da experiência psicanalítica.
O risco nos espreita. A difusão da própria prática
discursiva da psicanálise encontra, naturalmente, em nossa
cidade e no Brasil, no lugar onde poderia esperar produzir os seus
efeitos, um pedido. Sob que forma?
A contingente, mas certa, ausência de um ensino da tradição
psiquiátrica clínica clássica – coincide
com o declínio desta mesma tradição –
deixa os melhores psiquiatras em formação num vazio,
onde a escolha parece se formular entre um humanismo que desemboca
na suficiência do senso comum, e uma bio-psiquiatria que esquece
os seus próprios fundamentos epistêmicos, se celebra
como triunfante e de fato promete aos candidatos uma confrontação
com a loucura que evite para eles a questão que esta coloca
a qualquer sujeito que a interpele.
A crônica inexistência da psicologia clínica
força os melhores psicólogos em formação
à invenção de uma salada caseira, onde tudo
é permitido, pois a disciplina da qual eles se reclamariam
permite tudo e o seu contrário.
A crise das visões do mundo ou mesmo de ideais viáveis
no pensamento e na vivência ditos post-modernos; crise sensível
no campo político, deixa a paixão de compreender de
mais uma geração em uma hesitação entre
um apelo à religião e uma adesão à razão
cínica.
Nesta situação, nada extraordinário que a
psicanálise apareça como um recurso e receba um pedido
maciço de formação. Mas a psicanálise
não é um capítulo da psiquiatria clássica,
nem o salva-vida da psicologia clínica, nem, como se sabe,
uma visão do mundo, e – uma vez a mais, salvo se desvirtuar
– não pode se propor como uma qualquer destas consolações.
Ela é uma prática que questiona justamente as condições
que acuam o sujeito à necessidade de uma consolação.
Como prática, ela se mantém só enquanto houver
analistas à altura da experiência.
A coisa nem precisa ser lembrada, se já não estivesse
sendo esquecida. É patético que analistas possam contabilizar
os seus informados como alunos e chegar a nomear de instituições
uma multiplicação de escolinhas, onde o ordenamento
curricular revele a infantilização imposta aos candidatos.
Não há ensino da psicanálise que não
vise em primeiro lugar a divisão subjetiva do dito candidato,
ou seja: não há ensino da psicanálise sem formação
do analista. Mais claramente: a psicanálise só pode
se aventurar a ceder ao equívoco inevitável que instaura
a sua divisão – universitária ou particular
– se ela preserva rigorosamente a transmissão da sua
experiência.
O que está em jogo é então suficiente para
que a responsabilidade e a iniciativa devam ser tomadas de fundar
uma Associação que se engaje a manter e transmitir
o gume da experiência.
O ato é possível num contexto onde há anos,
por caminhos variados, uma comunidade psicanalítica vem se
constituindo de fato em nossa cidade, ao redor da prática
e discursos cuja referência comum à descoberta freudiana,
restituída na sua dignidade pelo ensino de J. Lacan, parece
certa.
Então a responsabilidade que esta referência comum
implica, hoje prevalece. Que não se trate de uma referência
"teórica" – ou seja, ideológico-cultural
– mas de uma referência ética, deve ser lembrado,
para estabelecer a justa medida desta responsabilidade que incumbe
a cada membro fundador. No caso associativo que nos interessa, o
único amor que cabe é aquele que se desata, oferecendo
ao outro a chance de se confrontar ao significante que, assujeitando-o,
o divide. O gozo gosmento do mútuo conforto, que oferece
a fala vazia das relações ditas pessoais, promete
uma imbecilidade que aqui é fala grave.
A Associação tem como alvo:
permitir a formação dos analistas;
garantir a qualidade analítica da prática dos seus
membros que ela reconheça como analista;
sustentar a produção e a difusão do discurso
psicanalítico em todas as situações que não
comprometem as condições de sua enunciação
– ou de seus efeitos.
- I -
A teoria da formação do analista, permanecendo um
cuidado explícito da Associação, ficam estabelecidos
os princípios preliminares seguintes:
a peça-chave da formação do analista é
a sua análise pessoal. Que neste quadro o pedido de formação
não seja concebido como diferente de qualquer outro, garante
aqui que ele seja interrogado pela experiência analítica.
Isso implica que a análise possa ser dita "didática"
só a posteriori.
A duração da análise do analista não
pode evidentemente ser determinada quantitativamente, mas é
certo que as condições mínimas de um desprendimento
subjetivo, necessário para a escuta de um analisante, implicam
uma desmontagem das identificações imaginárias,
uma redução das instâncias persecutórias
do Outro ao significante, uma prova repetida da inconsistência
da proposta fantasmática do sujeito que impõem um
tempo outro de análise, dificilmente contabilizável
e que, aliás, segundo a experiência , é cronologicamente
bem superior ao tempo que irrisoriamente a I.P.A. estabelece priori
como necessário para que uma suficiência instituída
apague a questão de uma insuficiência analítica
Também indispensável na formação do
analista aparece a prática do controle, à condição
que não se institua como lugar de conforto – às
vezes mutuamente negociado – onde a produção
ou a delegação de um domínio imaginário
pouparia ao analista o encontro com o real da clínica, antes
como lugar de análise das resistências (sempre do analista)
ao exercício de sua função e de seu ato.
Mas o exercício da psicanálise provém também
de um estudo de produção psicanalítica desde
a fundação da sua prática.
Neste quadro, a referência da Associação é
aos ensinos de S. Freud e J. Lacan. Também a formação
de um analista é imprescindível do interesse pelas
disciplinas todas que ocupam o campo da kultur – no sentido
freudiano.
Mais importante hoje é sublinhar que no acesso a um ensino
psicanalítico, o sujeito deve ser ao mesmo tempo "informado
e posto em causa" (Lacan). O ensino não obedece a uma
ética discursiva diferente daquele que comanda a fala do
analista na cura, ou seja, não visa a constituição
de uma doutrina que impossibilitaria enquanto tal a formação
do analista e a sua prática. Impossibilitaria a formação,
pois impediria que cada sujeito sustentasse a sua inserção
na teoria psicanalítica no efeito mais vivo da sua experiência
de analisante. Impossibilitaria a prática por impedir a disponibilidade
ao discurso do analisante que Freud desejava, sugerindo ao analista
um esquecimento do seu saber ao começo de cada cura.
Por isso é que a transferência que sustenta uma instituição
psicanalítica é uma transferência de trabalho:
nem o culto fúnebre de um texto, nem o culto melodramático
de uma expressão autoral, mas a circulação
de interrogações que voltam para o texto ou a fala
que as produz.
A transferência de trabalho que a Associação
pretende sustentar excede os limites da sua consistência;
ela pretende participar da transferência que anima o campo
psicanalítico no país e no mundo.
Fazem parte integrante da formação do analista o
conhecimento da história do movimento psicanalítico
e a inserção nesta história. Os princípios
aqui expostos engajam a Associação nesta história
e se entende que cada membro que nela inscreva o seu trabalho saiba
pertinentemente como ele se engaja nesta história.
As apostas em jogo relativas ao futuro da psicanálise, nesta
história, impõem que aqui qualquer razão de
conveniência seja considerada covarde.
A formação oferecida pela Associação
aos seus membros e participantes não é um cursus,
pois nada permite considerar acabada – mesmo além do
término de sua análise – a formação
de um analista, idéia esta de uma formação
acabada, que só facilita a inserção da psicanálise
num comércio cultural que desnatura o seu discurso.
De fato, desde que se entenda que a formação do analista
é um efeito, aparece que ela não pode ser projetada
nem do lado do sujeito que se candidataria, nem, e ainda menos,
do lado de quem proporia um caminho certo.
A Associação se engaja a oferecer aos seus membros
e participantes um quadro de possível formação.
Mas a formação é permitida, nunca garantida,
e nunca sancionada como acabada.
- II –
Firme resta o princípio que o analista, no seu ato, se autoriza
de si mesmo, a Associação pode e portanto deve assumir
a responsabilidade de "garantir relativamente ao exterior a
qualidade analítica da prática de seus membros que
ela reconhece como analistas". Se entende que a garantia da
qualidade analítica da prática não coincide
com a declaração de uma formação acabada.
Que o psicanalista se autorize de si mesmo não é
encorajamento nenhum ao exercício do delírio de autonomia.
Ao contrário, este enunciado sustenta o ato analítico
num "si mesmo" que só a análise pode produzir
como efeito. Nenhuma liberdade no ato de se autorizar, antes a determinação
do inconsciente do qual o analisante se produz como sujeito.
A responsabilidade do analista está deste ponto de vista
prioritariamente engajada, pois ele está em posição
de poder apontar ao seu analisante o que a sua decisão de
se tornar analista pode dever ao delírio da sua liberdade.
A Associação por sua vez pode assumir a responsabilidade
de considerar os efeitos da prática clínica e discursiva
dos seus membros, e decidir por sua espontânea vontade da
qualidade desta prática. Assim, a Associação:
Recebe como participante quem quer inscrever o seu trabalho no
quadro da Associação.
Admite como membro quem testemunha de um interesse pela psicanálise
que a Associação reconhece como fundado e produtivo.
Um membro pode anunciar à Associação que ele
clinica e pedir a ser inscrito como membro praticante. É
certo que relativo aos seus membros que desenvolvem uma prática
clínica (membros praticantes), a Associação,
embora não garantindo esta prática como analítica,
assume uma responsabilidade de fato que ela não pode negligenciar.
Isso até recolocar em questão a condição
de membro de quem, já sendo membro, anuncie se engajar numa
prática clínica.
Nomeia analista membro, o membro a cuja prática reconhece
qualidade analítica. Se este reconhecimento fosse pedido,
isto convocaria o analista a uma posição discursiva
que contradiz a sua própria prática. Por isso, uma
comissão assume a responsabilidade de fato e de direito de
se manter suficientemente informada para poder tomar a iniciativa
de nomear os analistas membros da Associação.
- III-
A Associação encoraja e sustenta a produção
e difusão do discurso psicanalítico, e cuida para
que as condições de sua enunciação e
dos seus efeitos não sejam comprometidos. Ela se engaja a
dar às produções dos seus membros a ressonância
que elas merecem, no seu seio e na pólis.
Se a produção e a difusão do discurso psicanalítico
são condição social da prática da psicanálise,
aliás necessárias à formação
dos analistas, a Associação considera que a produção
de teoria psicanalítica não constitui atestado de
qualidade analítica na prática. Ela entende evitar
o estímulo à produção como mola de promoção
do autor. Que a observação seja necessária
revela a extraordinária miséria na qual pode precipitar
a comunidade analítica.
A apresentação da psicanálise ao mundo é
crucial, antes de mais nada, pelos efeitos possíveis do discurso
psicanalítico na pólis, efeitos que constituem as
condições sociais da sua prática. Por isso,
a Associação cuida que os produtos da transferência
de trabalho que ela sustenta não sejam desviados no comércio
cultural.
Se entende que este cuidado não se concretiza em um purismo
doutrinal, ideológico, ou mesmo prático. O diálogo
no campo da cultura é também diálogo com todas
as disciplinas e as práticas que interrogam a dita saúde
mental. É essencial aqui que a psicanálise contribua
à elucidação do real que funda como distinta
cada prática, pois esta elucidação é
a condição de uma interlocução indispensável.
O regulamento interno – a ser redigido – prevê
desde já:
Uma mesa diretiva que compreende as funções seguintes:
presidente, tesoureiro, secretário, responsável do
ensino, responsável das publicações, bibliotecário,
responsável do acolhimento e responsável de eventos.
A mesa diretiva decide coletivamente do andamento da Associação
e das admissões de participantes e membros.
Uma comissão de analistas membros da Associação
decide dos membros cuja prática a Associação
reconhece qualidade analítica.
A mesa diretiva e a comissão dos A.M.A. são renováveis
por 1/3 a cada dois anos. Excepcionalmente, para engajar o trabalho,
a primeira mesa diretiva e a primeira comissão disporão
de três anos.
Um conselho dos membros fundadores presidido pelas pessoas que
tomam a iniciativa desta proposta e cuja função consiste
em cuidar para que a Associação continue respondendo
aos objetivos para os quais foi criada. Este conselho se reunirá
pelo menos uma vez por ano para discutir o relatório moral
do secretário da APPOA, antes que seja apresentado à
Assembléia Geral dos seus membros.
A presidência do conselho dos membros fundadores constitue
uma instância deliberativa de recurso para as outras instâncias
institucionais, desde que não se realize o consenso que é
modo decisório normal dessas instâncias.
No dia 17 de dezembro de 1989 é fundada, em Porto Alegre,
no Hotel Umbu, a Associação Psicanalítica de
Porto Alegre (APPOA), pela decisão das pessoas aqui presentes
que assinando se constituem membros fundadores.
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