PROJETO: Por que o livro não acabou...
A CRIAÇÃO DA CRIANÇA: brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê
Nossa “orelha”
Julieta Jerusalinsky trata do que se passa no laço entre mãe e filho, naquele tempo da infância em que o bebê, apesar de já ter um lugar demarcado na linguagem, de ser falado, ainda precisa devir como falasser. A interrogação sempre posta na clínica psicanalítica da infância é o que fazer para que se realize essa travessia, quando algum sintoma sinaliza sua dificuldade.
“A Criação da Criança” porta um equívoco inerente ao processo de constituição psíquica no advento do sujeito, sendo que no trânsito entre a mãe e o bebê este oscila entre as posições de objeto e de sujeito. Por um lado, a criança como objeto de criação, por outro, como sujeito que, passo a passo, torna-se capaz de criar.
A autora sublinha a possibilidade clínica de uma leitura dos bebês buscando no seu corpo a letra, inscrição psíquica que deve ser alçada na condição de um enigma cifrado de sua relação com o Outro. Letra que é inscrita pela mãe, movida por seu desejo, em cada um dos buracos corporais do bebê, atrelando seu funcionamento pulsional à linguagem, delineando assim o litoral entre gozo e saber que pode ser visto nos cuidados maternos. Na leitura do laço mãe-bebê, ela destaca a conjugação de voz e significante, de como o gozo materno, presente no ato de enunciação, afeta o bebê.
Inscrições psíquicas, gozo materno, brincar, jogos constituintes do sujeito, jogos de litoral, são temas trabalhados neste livro a partir das questões que a clínica coloca quando se trata de intervir nos primórdios do psiquismo. O texto articula a teoria e o fazer psicanalítico aliando o rigor conceitual acadêmico à potência de uma clínica em movimento, única forma capaz de renovação da própria teoria psicanalítica.
Associação Psicanalítica de Porto Alegre