236 julho/2014

Os 50 anos do Golpe Militar no Brasil


Temática

Daqueles tempos

Ana Costa

Acontecimento

Saiu a foto na primeira página do Correio do Povo. Era da época em que os jornais tinham formato de grandes cartazes, de difícil acomodação para leitura. Na foto, alguns livros, um pôster do Che Guevara e uma placa grande de madeira, anunciando o limite de velocidade de 80 Km. A matéria tratava do desbaratamento de mais um “aparelho”e aquela era a exibição de um material “subversivo”. Apesar da angústia que a situação tinha me provocado, mal contive o riso. A placa de madeira –roubada da estrada por um amigo –servira-nos de mesa por algum tempo. Minha prima a herdara, quando se mudou para a aquela república de estudantes, depois de meu casamento. A república de estudantes era o tal “aparelho”e minha prima dera o azar de ter mudado para ali, tendo sido presa junto com todos seus moradores. Diga-se de passagem: todos eram estudantes, sem maiores envolvimentos com o que pudesse ser considerado ativismo político.

O acompanhamento desse episódio foi o mais próximo que estive da violência e arbitrariedade da ditadura e da polícia do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Era final dos anos 70, a ditadura ia para seu décimo ano. Aprendi como se produzia um “desaparecido”: minha prima sumira do mapa, seus rastros somente podiam ser acompanhados na surdina, por mediação daqueles que viviam na clandestinidade e que conseguiam informações.

Queríamos fazer algo, produzir elos que resgatassem os desaparecidos, se não os trazendo ao convívio, pelo menos oficializando sua prisão. Organizou-se uma visita de familiares ao prédio do DOPS –atual Palácio da Polícia, na João Pessoa –levando roupas aos presos. Fomos recebidos no balcão de entrada e entregamos a lista dos presos ao recepcionista, que quis encerrar a conversa com “não tem ninguém com esses nomes aqui”. A tensão cresceu quando um policial levantou-se da cadeira em que estava e interpelou o irmão de uma das garotas presas. Minha cabeça rodou, pensei que não sairíamos dali, que desapareceríamos junto com os outros.

Esse episódio representou para mim uma forma de despertar. De algo que furou a repetição cotidiana de claras balizas, na tentativa de ignorar o contexto em que vivia. Como estudante, parecia-me que gritar palavras de ordem definia um ativismo que mudaria o mundo. Foi ali que a palavra “desaparecido” destacou-se do discurso que me orientava. Constituía-se num ponto indefinível, numa suspensão da experiência. O episódio que vivi encerrou-se com o retorno dos que tinham sido presos. Mas eu não podia mais ignorar a radicalidade desse momento.

Épossível transpor essas questões para experiências da ordem de um despertar traumático. Como no clássico exemplo, trabalhado por Freud, em que ele situa o relato de um sonho que traz a frase do filho morto ao pai: “pai, não vês que estou queimando?”. ÉLacan quem propõe essa frase como da ordem do despertar, ou seja, gerando essa impossibilidade de acordar para o sonho da vida, no que viver sempre implica a constituição do campo dos sonhos: acorda-se para continuar sonhando. O despertar traumático rompe a rede dos sonhos –rede da pesca significante –da qual somos todos prisioneiros. A busca de testemunho visa constituir enlaces, quando situações de exceção sótrazem ruptura.

Memória

São muitos os testemunhos que temos dos efeitos de ruptura na transmissão entre gerações. Neles, os estados de exceção compõem um lugar central, seja a partir de guerras, ou dos crimes de estado, tais como nas ditaduras. Em relação àguerra, um parágrafo do livro W ou memórias de infância, de Georges Perecéparadigmático:

“Não tenho recordações da infância”: eu fazia essa afirmação com segurança, quase como uma espécie de desafio. Não precisavam me interrogar sobre essa questão. Ela não estava inscrita no meu programa. Estava dispensado dela: uma outra história, a Grande, a História com H maiúsculo, havia respondido em meu lugar: a guerra, os campos de concentração. (pg. 13)

Interessa-me frisar esse “estar dispensado”, na medida em que parece dizer justamente da ruptura a que me referia. O sujeito resulta de uma articulação sutil entre discurso e linguagem: o discurso, compondo o laço social; a linguagem articulando formações do inconsciente. Destas, resulta a singularidade do sítio do sujeito, estabelecendo o sintoma como sua forma particular de situar o corpo no discurso. As formações do inconsciente, a partir da psicanálise, podem ser entendidas como possibilidade da constituição dos jogos significantes no furo do saber. Saber, este, estabelecido pelo discurso social.

Encontramos esse furo na história individual, na passagem da infância àpuberdade. Faz parte de um movimento de separação, do qual resulta grande parte do esquecimento da infância. O esquecimento, aqui, diz respeito ao recalcamento do corpo da infância, corpo do discurso dos pais. Não éo mesmo referido por Perec, na medida em que as rupturas traumáticas não constituem retorno do recalcado, que éa forma particular de como se estabelece uma memória no enlace significante.

Assim, as rupturas entre gerações, resultantes de estados de exceção, incidem justamente nos movimentos de separação. Láonde seria necessária uma passagem pelo luto. Como pensar um luto sem reconhecimento de uma morte? Seria possível luto aos desaparecidos?

Os tempos do luto

Lacan nomeia três formas de relação àfalta que têm me servido para pensar os tempos do luto: frustração, privação, castração. Passar pela frustração preserva o objeto numa representação imaginária, num tempo suspendido. Como se situasse um porvir de reencontro, postergando ao infinito a perda.Éum movimento que traz a culpa, preservando o objeto no imaginário, seja quando háa atribuição de culpabilidade a algum outro, seja no retorno, na cobrança cruel do supereu. A privação éo tempo do furo real, quando a falta do outro dói, rasga o corpo e nada substitui. Éuma passagem necessária no luto, quando a ausência do outro se apresenta como privação dos sentidos. Finalmente, a castração, na reconstituição da rede significante que comemora o fim do luto.

Assim, o luto tem diferentes tempos, não acontece imediatamente, de uma única vez. Numa das faces ele écarregado por uma função social, efetivada por aqueles que acompanham. Como ficou essa função social no que diz respeito aos desaparecidos, quando sua morte não foi inscrita no laço social? A função social évivida no ritual, que permite uma primeira separação. Assim, a separação éum trabalho psíquico que não reconhece imposições de fora, nem de uma atribuição de realidade àsituação, precisa de muitas elaborações. A outra face do luto se refere a viver a perda, reconhecendo-a enquanto um registro da experiência. Éa experiência solitária, que diz respeito a cada um, mais além do compartilhado.

Referências bibliográficas

Lacan, J. O Seminário. Livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

Perec, G. W ou a memória da infância. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Autor: Ana Costa





julho de 2014 - Correio APPOA