236 julho/2014

Os 50 anos do Golpe Militar no Brasil


Temática

E o Exílio?

Flávia Schilling

Exilados, refugiados, migrantes, desterrados, desenraizados, deslocados. Termos da nossa história, termos da experiência da modernidade. “Indivíduos frágeis, destinados a conduzir suas vidas numa ‘realidade porosa’, sentem-se como patinando sobre gelo fino”. É, de alguma forma, uma experiência bastante comum, conhecida por todos nós. Não passa indiferente: provoca reações e respostas. Na primeira edição do Fórum Social Mundial, uma expositora boliviana reivindica o direito ao enraizamento como um direito humano. É o direito de não ser obrigado a migrar, de não ser expulso ou deslocado de sua terra.

São exílios marcados pela força, exílios voluntários – existirão? Exílios provocados por mudanças – que nos fazem sair, estar fora, expulsos, daquilo que nos era familiar. Que pode significar estar “fora” do lugar conhecido, do país, ou, estando dentro, não mais reconhecer aquele país, aquele lugar: o inxílio, termo inventado no Uruguai para narrar a experiência vivida por aqueles que lá ficaram, na ditadura, e viviam se sentindo exilados em seu próprio país.

Ao mesmo tempo, este estranhamento, este olhar partido, este deslocamento, pode ser visto em sua positividade e como um elemento fundamental para o conhecimento. É nesta linha que trabalha Bauman, comentando Derrida: somos por ele convidados a pensar em viagem, ou seja, pensar a atividade única do partir, ir embora do chez soi, para o desconhecido, para viver todos os riscos, prazeres e perigos. Construir um lar na encruzilhada parece ser uma forma muito contemporânea de descrever nossa situação humana. Bauman toma esta metáfora e nos diz que “em vez de ser sem pátria, o segredo é estar à vontade em muitas pátrias, estar em cada uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a visão crítica de um estranho, envolvimento com distanciamento”(p.236). Ser exilado no lugar (não do lugar) resultaria em liberdade. Pois criar e descobrir significa quebrar uma regra. E o exilado rompe regras, não por escolha, mas por desconhecer os códigos profundos daquela cultura. Ao mesmo tempo, na volta, trarão para o país de origem, este estranhamento. Bauman diz ainda, citando Christine Brooke-Rose (EXSUL), que a marca distintiva de todo exílio é a recusa a ser integrado, a determinação de situar-se fora do espaço, construir um lugar próprio, uma resolução a manter-se “não-socializado”(p.238). Daí, por exemplo, ser possível discutir o exílio não necessariamente ligado a uma experiência física – de deslocamento de um lugar – mas como uma experiência mais geral, como inxílio, como um deslocamento, como a perda da familiaridade.

Só consegui elaborar estes conflitos – que combinam perda e aumento da liberdade e da criação – muitos anos após o fim dos exílios em seu sentido estrito, o exílio político. Sempre considerei o exílio como uma experiência do meu pai – ele era o sujeito do exílio, o exilado. Nós, como família, apenas compartilhávamos desta condição. Mas não era assim. Todas fomos exiladas. Tentando pensar nesta experiência, à luz das colocações anteriores, o exílio:

– É violência, é desenraizamento, é ser arrancado.

– É estranhamento: é viver a condição de estrangeiro.

– É viver olhando para fora; é a vivência de um tempo que se espera que seja breve; é a vivência constrangida de um tempo que passará, como uma febre. É um tempo de dor, pois não há mais lugar para aqueles que lutaram naquele país, por aquele país. É um tempo de raiva. É um tempo de fechamento.

– É um tempo de manter a língua natal, manter os costumes. As reuniões e os amores ocorrem naquele círculo. Ao mesmo tempo, quando o exílio se prolonga – e como foi longo o tempo deste exílio do Brasil – impossível não viver aqueles outros países. Mesmo sob o signo do provisório. O exilado – se pudesse defini-lo – é aquele que não desmanchou as malas. Ou aquele que está com as malas sempre prontas para a volta. A volta, quando é possível, é acompanhada por uma pergunta: voltamos? Ou ficamos? Muitos ficam. Passam da condição de exilados para a de cidadãos dos novos países. Podemos continuar e problematizar: volta-se? Volta-se para um lugar físico, geográfico. Nada mais é igual, claro.

– É uma experiência, como narra Bauman, imprescindível: compõe um lugar que permite ver como nunca se poderia ver se tivéssemos ficado dentro. É o olhar que permite conhecer como vivemos. A volta? O olhar estrangeiro não se perde mais. O estranhamento permanece, agora, em relação àquilo que se sentia como tão familiar e próximo. A mim, este estranhamento, este olhar de estrangeira em meu país – e em qualquer país – me leva a interrogar e tentar compreender o tempo todo. Não há mais familiaridade possível. Romperemos as regras do país natal, quando voltarmos. Não conhecemos mais os códigos.

A resoluta determinação de permanecer “não-socializado”; o consentimento a integrar-se apenas sob a condição de não-integração; a resistência – muitas vezes penosa e agonizante, mas em última análise vitoriosa – à grande pressão do lugar, tanto o antigo quanto o novo; a áspera defesa do direito de julgar e escolher; a adesão à ambivalência ou a invocação dela – essas são, podemos dizer, as características constitutivas do exilado.

Referências bibliográficas:

BAUMAN, Zygnumt. Modernidade Líguida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Autor: Flávia Schilling

 

Texto dedicado ao meu pai, Paulo Schilling, exilado no Uruguay e na Argentina de 1964 a 1980. Esse texto compõe uma parte do memorial da livre docência, defendida na Faculdade de Educação da USP em 2012.

Flávia Schilling é professora da Universidade de São Paulo. Defendeu a Livre Docência em 2012 e é Professora Associada da Faculdade de Educação da USP. Trabalhou anteriormente em escolas, assim como no Núcleo de Estudos da Violência da USP. Foi coordenadora do Centro de Referência e Apoio à Vítima. Foi consultora da Comissão da Mulher do Parlamento Latino-americano. Integra a Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, tolerância e democracia. É pesquisadora do CNPq (Pq2 e Pq1D), com o tema da Escola Justa. ViceChefe de Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação (2009-2011 e 2012-2013) e Chefe do Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação (2013-2015)





julho de 2014 - Correio APPOA