236 julho/2014

Os 50 anos do Golpe Militar no Brasil


Editorial

Editorial

Marta Pedó

Editorial

Neste ano de 2014, compartilhamos as emoções do futebol, dentro e fora dos estádios, com brasileiros e estrangeiros. A Copa passou, o cotidiano retornou e vai-se tecendo o que nos ocupará a seguir. Em outubro haverá eleições, e este número do Correio da APPOA, com o tema do golpe em seu cinquentenário, traz escritos que nos fazem pensar onde depositaremos nossos votos para os próximos anos.

Passaram-se 50 anos desde o golpe militar no Brasil, e uma série de eventos e manifestações relembraram os acontecimentos de então. Em suas diferentes maneiras, as tentativas de elaborar o ocorrido e seus desdobramentos são do interesse de todos. Como psicanalistas, desde a fundação da APPOA, temos nos debruçado sobre a cultura e o social, entendendo que o sintoma é o social. Portanto, o interesse ultrapassa os valores humanitários e da nação, que por si mesmos já justificariam buscar o assunto.

Gabriela Itaquy escreve sobre os restos da violência e seus rastros no risco de repetição, analisando dois acontecimentos: o primeiro, a morte de Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura (1971); o segundo, Amarildo, desaparecido em 2013, após ter sido preso pela Unidade da Polícia Pacificadora da Rocinha. "Revolver", mesmo que difícil e parecer espalhar a sujeira, se faz em muitas vezes e tem em si a potência do encontro com o passado ao transmitir o inenarrável, ou irrepresentável.

O texto de Edson Sousa inicia sobre o livro "Exercícios de sobrevivência", de Jorge Semprun, cuja narrativa versa sobre a devastação perpetrada pela ditadura. No Brasil, a lei da anistia amparou o não-reconhecimento das atrocidades cometidas, dando espaço ao que H. Arendt chamaria de "arrogância do mal". A inexistência imposta, por exemplo, nos desaparecimentos, provoca a eliminação simbólica, tortura que lesa a humanidade em si.

A humanidade do homem não pode ser destruída e por isto as atrocidades contra ela não tem limites, já teria dito Blanchot, desta vez na bela escrita de Paulo Endo, cujo artigo versa sobre o valor dos memoriais (por ex, em SP, a Estação Pinacoteca). Ao lê-lo, podemos acompanhar seu percurso pelos memoriais onde a representação e o desaparecimento se encontram e sua leitura psicanalítica desse trabalho, contínuo, de lembrar das falas que fundam a linguagem.

"E o exílio?", pergunta Flávia Schilling em seu artigo. Será que ele poderia compor a viagem, chance de chez soi, com diferentes riscos, desafios e prazeres? Antes de uma viagem assim, o exílio tem a marca da recusa a ser integrado - perda da familiaridade, entre outras.

Afinal, como se produz um "desaparecido"? Ana Costa abre essa pergunta a partir da análise de dois pontos cruciais - de um lado, como o ditador imputa a subversão, usando traços/objetos/indícios quaisquer para comprovar sua tese e fazer um "desaparecido": de outro lado, desenvolve sobre a ruptura que se produz pelo sujeito desaparecido. Há separações inerentes à vida, que provocam rupturas e luto; contudo, a perda de um "desaparecido" faz permanecer a imagem, o que impede sua elaboração. Essa morte, não inscrita no laço social, fora de discurso, não dá lugar a suas muitas elaborações necessárias.

Boa leitura!

Autor: Marta Pedó





julho de 2014 - Correio APPOA