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Correio 211 - abril de 2012

Editorial

A cultura hoje anuncia uma posição que, perante a erótica e o amor, nos traz questões como psicanalistas.

Se de um lado já temos bem clara a separação entre o sexo e a procriação, ou mesmo a queda da homossexualidade como categoria à parte – coisas que bem Freud inaugurou em suas posições equilibradas – ainda assim, ainda com a permissão do exercício erótico desvinculado de uma posição que poderíamos chamar de cristã/católica, assistimos concomitantemente à explicitação da expectativa de uma normatividade.

Como exemplo, tomemos o filme que estreou, em nossa cidade em meados de março, Shame (dirigido por Steve McQueen, 2011). Filme arrojado enquanto narra a experiência privada de um sujeito que faz sexo com muita intensidade, (viciado em sexo, segundo algumas sinopses), mas ao mesmo tempo finaliza/nos deixa com a ideia de que deve ser muito miserável a vida de alguém assim... Ou seja, numa visada do que não é normal, é triste, sofrido.

A psicanálise se abstém da ética e da erótica no ponto em que, após apontar o desejo, o analista se abstém de dizer como o sujeito vai chegar ao gozo, ao prazer. Mas no sintoma se trata de gozo, e a psicanálise só pode tomar como ponto de partida o sujeito do gozo.

Lacan e Freud têm ambos uma posição bem interessante ao apontar que o sintoma é o social. Com ela, podemos sair da condenação moral, ou mesmo da mais leve expectativa de uma norma daquilo que seria "o caminho feliz". Antes, pensamos poder abordar o que se anuncia na cultura – mais especificamente na arte, que em geral oferece um avant première do que vem se constituindo e que requer nosso reposicionamento.

Ou, indo mais adiante, lembrando que desejo e lei estão no mesmo ponto da Banda de Moebius, também somos convocados a sair da posição do que é bom ou mau, para podermos pensar nas incidências dos determinantes culturais sobre a clínica e nas mudanças que podem provocar no sintoma (não se trata de domar ou adestrar o pequeno monstro dentro de nós como o desenho animado do Pokemón...).

Em 1999 estreou, de Stanley Kubrick, Wide eyes shut (De olhos bem fechados), ao contrário do nosso usual "de olhos bem abertos".

No filme, viajamos com Tom Cruise pelas imagens projetadas de lugares desconhecidos dele mesmo, lugares carregados de um erotismo devasso. No baile de máscaras, uma festa estilo orgia em que os presentes são em sua maioria autoridades e outros famosos, o protagonista se apresenta como Fidello (fiel), erra a senha da casa e é obrigado a tirar sua máscara e sua roupa antes de entrar. Despido entra na festa. Exposto. Feito o convite a que nos identifiquemos às fantasias eróticas (e paranoides) projetadas quase em pesadelo.

A erótica não é qualquer uma – o erotismo, mesmo que bizarro, atende a uma cartografia, ou melhor, a uma gramática. Digo cartografia lembrando Freud, que nos "Três Ensaios" descreve diferentes modos de escolhas e gozo sexuais. Talvez seria melhor dizer que em toda sua obra ele trabalha sobre a erótica. Por exemplo, Freud diz que a pulsão é uma montagem. Lacan – é uma montagem surreal.

Lacan anuncia algo novo com o conceito do objeto a. A satisfação, desde então, tem na falta origem e fim. Ou seja, mesmo se apresentando errante/fugidio, o objeto que se apresenta à falta não é qualquer – responde a uma determinação.

Em Lacan, a coleção enumerada das formas de gozar é substituída por uma formulação mínima – a erótica não é qualquer uma porque ela está determinada pelo significante – mais ainda – pela sonoridade que as palavras encontram e com a qual fisgam o pedaço de carne à deriva numa rede articulada em um determinado enredo.

De volta a olhos bem fechados: qual o estopim da viagem erótica do protagonista? É um casal ideal que num dia vai a uma festa elegante... A suspeita da infidelidade num casal ideal, seguida do breve relato de um amor passado – a mulher diz que por "aquele homem" seria capaz de deixar tudo (até marido e filha).

O Amor leva à loucura.

Diferente da transa, do ficar ou do trocar saliva, o amor ultrapassa e transborda o que poderia ter sido apenas um encontro de prazer. Com essa capacidade de nos fazer sentir íntimos – do parceiro e do corpo próprio – o amor surpreende. Por instantes, somos "elevados" a não sentir o corpo com o corpo.

Paradoxo... Estupefação.

"O ato de amor é poesia".

O corpo provoca, a erótica está na nossa vida como o corpo que goza (parcialmente). Goza e se faz lembrar.

O corpo provoca – não sempre. Às vezes podemos bem esquecê-lo. O corpo provoca de maneiras diferentes – faz-se lembrar na dor, no cansaço, no prazer. No sintoma.

Poderia-se bem dizer que a psicanálise é o estudo da erótica.

Seguindo o debate iniciado em nossa Jornada de Abertura desse ano, organizamos a Seção Temática desse Correio buscando agrupar, por sua relevância teórica, tanto artigos já publicados anteriormente em outras mídias, como outros inéditos. O amor e a erótica são temas centrais desse ano de trabalho na APPOA. O tradicional encontro Relendo Freud, que acontecerá em agosto, irá dar continuidade a essa discussão com a leitura do artigo "Consequências psíquicas das diferenças anatômicas entre os sexos".

Com a aposta de contribuir ao seguimento desse debate, desejamos a todos uma boa leitura!

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