No dia 05 de maio último tivemos a oportunidade de escutar e debater com Leda Bernardino, psicanalista da Associação Psicanalítica de Curitiba, as questões que desenvolve em seu livro, recentemente publicado pela Casa do Psicólogo: “As psicoses não decididas da infância: um estudo psicanalítico”. Leda nos traz a especificidade da clínica psicanalítica de crianças – trabalhar com um sujeito em estruturação –, propondo “psicoses não decididas” como uma categoria diagnóstica, chamando assim atenção para o equívoco de tomar a estrutura como já dada na infância.
Iniciou sua fala ressaltando a indissociação entre a clínica e a pesquisa psicanalítica, defendendo uma maior exposição do trabalho psicanalítico que testemunhe a sua eficácia, o que tem uma importância ainda maior quando se trata de crianças. Falou-nos com muita propriedade clínica e rigor teórico sobre o processo de estruturação do sujeito, enfatizando que cada momento lógico dessa estruturação implica numa transcrição das inscrições de uma outra forma. São momentos-chave na constituição do sujeito, os quais ela articula com os tempos lógicos de Lacan: “Instante de ver” – Olhar da mãe como estruturante: identificação especular; a marca do olhar do Outro; inscrição significante do traço unário (operação de alienação);
“Tempo de compreender” – Apagamento da inscrição primordial: o significante Nome-do-pai substituindo o significante do desejo materno. Presença/ausência (operação de separação): o fort/da: a criança entra no campo da linguagem (Édipo), abrindo passagem para a latência.
“Momento de concluir” – Momento da interpretação do significante Nome-do-pai: momento da “escolha” do sinthoma (adolescência).
Nessa dialética entre sincronia (estrutura) e diacronia (desenvolvimento), aparecem muitas vezes momentos de vacilação, de suspensão, onde o significante Nome-do-pai não opera suficientemente, surgindo os quadros graves na clínica de crianças. Mas a autora defende, seguindo Alfredo Jerusalinsky, que a estrutura não está decidida na infância, e há aí a importância crucial, para este sujeito em estruturação, de encontrar um Outro viável: um “bom entendedor”. A partir da pesquisa clínica (e há no livro belo relato detalhado de um caso), Leda postula que o tratamento psicanalítico vem a representar um divisor de águas no rumo da definição estrutural nestes casos graves da infância. Frisa que, ao tomarmos as psicoses como não decididas, se mantém a questão da aposta como uma estratégia clínica na psicanálise de crianças: não desistir da aposta no advento do sujeito. (E aqui ela se aproxima das contribuições trazidas por Silvia Fendrik, em seminário recentemente apresentado na APPOA).
Outro aspecto destacado no debate com Leda Bernardino, foi o da complexidade transferencial na clínica com crianças, em especial no trabalho com os pais.
Seguiremos trabalhando este tema, no próximo encontro do Núcleo de Psicanálise de Crianças, no segundo sábado de junho.
Ieda Prates da Silva
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