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Jornada Angústia na Clínica Psicanalítica


    Nos dias 20 e 21 de outubro, a APPOA promoveu mais uma de suas jornadas clínicas, onde firmou-se a certeza da relevância do tema da angústia na condução dos tratamentos. Muito se trabalhou e a cada apresentação presenciamos uma riqueza e um vigor intensificados  no momento de abertura aos debates. Importantes questões foram levantadas e os efeitos destas fizeram eco ao que Lacan anunciava logo nas primeiras linhas do Seminário 10, ao referir o caráter de articulação de “ um certo número de termos”  tratados por ele em seus discursos anteriores.
Nas dezessete apresentações distribuídas em seis mesas, contemplamos exaustivamente a leitura do referido seminário. Outros textos psicanalíticos vieram somar-se a esta tarefa, e como não podia deixar de acontecer, o diálogo com diferentes disciplinas foi contemplado na análise de ficções literárias e produções artísticas contemporâneas. A obra de Graciliano Ramos nos foi trazida como ímpar para pensarmos a passagem de questões psicanalíticas ao texto ficcional, pois registra o destino do personagem diante da(s) perda(s): dos nomes; da amada; de sua identidade; das raízes. Aqui a fantasia sucumbe à pobreza e a miséria e o seu desabamento expressa-se na depressão e angústia. O sujeito fica sem rede de proteção. Adveio aqui, como interrogação, a proposta lacaniana de que o desejo seria o remédio para a angústia  
O conceito e a práxis psicanalítica no tratamento da angústia, título de nossa segunda mesa, foram debatidos ao longo de todo o evento. A seqüência dos trabalhos denotou, tanto nas leituras apuradas do seminário de Lacan, quanto nas apresentações de casos clínicos ou apenas fragmentos destes, aquilo que já antecipávamos no argumento de nosso folder: “a psicanálise  produziu um estatuto singular para a angústia, ao situá-la no centro da condução dos tratamentos... um afeto fundamental e constitutivo”.
Iniciamos um difícil, mas importante revelar da teoria lacaniana acerca da função da angústia. O estatuto do objeto a e a primazia do registro do Real, na proposta lacaniana, foram importantes ferramentas para pensarmos o que se passa em torno deste que vem como sinal de algo que escapa ao jogo dos significantes. Temos acesso a ele, sem dúvida, mas apenas como representativo de uma impossibilidade de qualquer tentativa de objetivação. Ele marca para nós, a certeza de que nunca teremos acesso a ele, senão pela via de uma experiência vivida no corpo, mas que para todo o sempre nos representará enquanto sujeitos de uma perda irrecuperável. O objeto a lacaniano, como foi bem lembrado nos debates, não visa a positivação, mas apontar uma presença com a qualidade de uma aparição daquilo que se nomeou invisível, para que paradoxalmente possa adquirir lugar de “ visível”, assumindo uma forma no sem forma. As reflexões na questão do silêncio e do escuro (como a falta mesma de luz), trazidos a partir de um caso clínico, fizeram eco a uma importante interrogação clínica: seria a falta do significante esse momento de queda do lugar onde o sujeito poderia se reconhecer enquanto desejado?
As manifestações da angústia no corpo foram abordadas tanto pela via do analisante, quanto do analista. Num, se daria a ocorrência de inúmeros sintomas manifestos nas crises, nomeadas como medo, pânico, terror. Noutro, diante da emergência destes estados, poderia se proceder a questão do ou “Ele ou Eu”. De qualquer forma  a angústia convoca a ser. Resgatou-se, neste ponto, a função do campo do Imaginário, e a dependência do corpo às ficções para a sua sustentabilidade. A figura do duplo, tão exemplarmente trabalhada ao longo do ano, retomou posição de importância no tratamento da angústia, enquanto um usurpador, um representante mortífero, pois ocupante de um lugar que não lhe pertence de direito.
A questão da maternidade/paternidade, o lugar da infância/adolescência, e os laços conjugais, carregados pela dimensão da troca: deixar de ser, não ser mais o que se foi para se tornar uma outra coisa, e o estranhamento pela distância entre as imagens produzidas a partir deste ponto de disjunção, como uma nova versão. O estranhamento, e mais especificamente a angústia, surgindo como a possibilidade de não-castração e um desejo sem interdição.
A posição ocupada pelo amor, o trabalho do luto, e o lugar de falo materno, também surgiram como valiosos pontos de análise para pensarmos a clínica da angústia. A  diferença entre escritura, fala e a própria coisa; morte mítica  versus morte real; a angústia vista sob os olhos do artista, num recorte que salienta, assim como a obra literária, o espaço daquilo que tentamos nomear em imagens, mas que não abarcam a totalidade do horror, do estranhamento, da perda, do espedaçamento, do desfalecimento, da coisificação do humano, no lugar do social, onde obra e criação se misturam, numa tentativa de ali dar escrita/imagem/fala para dar corpo à coisa... perda não significa a falta. Angústia: onde a falta pode faltar; a verdade do desejo; a vergonha e sua relação com a angústia; repulsa, moralidade. Seria a arte  uma apresentação ou uma representação? O impasse entre a coisa e a imagem.
Inúmeros trabalhos apontaram a impossibilidade de nos pensarmos enquanto seres humanos sem a existência deste afeto. Pois ele é ponto de partida, sinalizando que na experiência do vivido, coisas se separam de nosso corpo, e ao invés de recobri-lo, devemos atravessar o mesmo.
Para finalizar, não podemos deixar de lembrar que ao longo deste evento brindamos a criação do Instituto APPOA, que lança em nossa instituição um novo espaço, promissor e fundamental na continuidade do fazer em psicanálise, dentro e fora da pólis.

Márcia Zechin

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