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OFICINA DE TOPOLOGIA – O NÓ BORROMEANO DE LACAN

No sábado, dia 19 de agosto, realizou-se mais uma Oficina de Topologia na APPOA.
Desta vez, avançamos na discussão sobre os nós. O roteiro da oficina foi o seguinte:

1. Para compreender os nós: os movimentos de Reidermeister.
2. A cadeia borromeana de três nós. Confecção (modo simplificado, costurado, e a partir da trança).
3. O “nó borromeu generalizado” de Lacan.
4. Cadeias feitas com retas infinitas.
5. Cadeias de 4 nós.
6. O “nó de Joyce”, segundo Lacan.

Há 3 tipos básicos de movimentos de Reidermeister. Todos são usados para confecção de nós. Podem ser redutíveis (desatar sozinhos, continuar livres) ou não-redutíveis (ficam presos, enlaçam a si mesmos ou aos outros).

Figura 1
(Cada grupo destes é isotópico)

A cadeia (link) feita com três nós livres, chamada por Lacan de “nó borromeu”, pode ser construída se “costurando” dois elos fechados soltos, com um terceiro, aberto, que deverá passar sucessivamente por cima de um, e por baixo do outro, e se fechará em seguida. Também pode ser feita a partir de uma trança.
Quando chegar a seis cruzamentos, os fios terão voltado a suas posições iniciais. Então, basta religar os fios na mesma ordem para se obter a cadeia borromeana.

Eles estarão aparentemente presos, mas estão soltos, de fato.

Figura 2

Na cadeia borromeana “clássica” (a três), todos os elos estão em igualdade de posição: em se desamarrando um deles, todos se soltam. Lacan conseguia enfim uma forma de apresentar as três instâncias do sujeito da linguagem: Real, Simbólico, Imaginário, sem uma “hierarquia” entre si. No centro seria o lugar de seu objeto a – o objeto causador de desejo – lugar vago, e ao mesmo tempo tão cobiçado.

Para distinguir os nós entre si, Lacan deu-lhes nomes, orientou-os (com setas) e coloriu-os. Mas isso não bastava, pois, mesmo assim, eles continuavam sendo todos iguais e podiam intercambiar-se.

Lacan deve ter errado um bocado (assim como nós), nessas experiências de amarração. Percebeu que às vezes fazia um cruzamento a mais, e ficava um elo bem torcido no meio. Porém, ele ainda era borromeu. Chamou este de “nó borromeu generalizado”. Michel Thomé demonstrou em um seminário de Lacan, que não havia nenhuma diferença entre as diversas apresentações da cadeia borromeana1.

Figura 3

Por que Lacan precisava distinguí-los? Talvez procurasse uma diferença para o nó feminino e o masculino? Talvez quisesse um conjunto de nós que se desfizessem sozinhos, por homotopias?

Para poder fazer a diferença, acrescentou um quarto elo à cadeia. Seria o nó da realidade psíquica, ou do sintoma, ou do complexo de Édipo, ou do Nome-do-pai...Este foi o gancho para a questão da nominação2.

Figura 4

Com quatro elos, há uma resistência natural dos nós à homogeneização. Três deles obedecem, mas há um que resiste – que fica emaranhado no meio da cadeia. É o nó “da banana”, como o apelidou Lacan, que insiste em escorregar...


1 V. artigo no Correio da APPOA: RSI – setembro 2004.
2 Lacan. Seminário RSI, 1974/75.

Quando Lacan introduziu o nó borromeu “tradicional” (a três) como estrutura do sujeito neurótico, muitas questões se seguiram. Como seria no caso da psicose? A hipótese de que um – ou mais de um – elo estaria solto (como uma reta infinita, talvez?) não respondia suficientemente.

Se com três elos o objeto a estava no centro, onde seria o “buraco” da cadeia a quatro? O que segura o “nó” do sujeito, seria um “falso buraco”, composto pela “nominação simbólica”: o nó do Simbólico, juntamente com o Sintoma. Como no caso de Joyce (Lacan, seminário O Sinthoma): Joyce seria um artista. Sua arte, seu « sinthoma ».

Seria o nó de Joyce suficiente para dar conta das psicoses? Não, pois no final de seu ensino Lacan voltou-se para as superfícies uniláteras (de Boy, de Seifert).

Seria a cadeia borromeana a “escritura que sustenta o Real” do sujeito, com queria Lacan? Durante certo tempo ele afirmou que sim. Mais tarde, no Seminário A topologia e o tempo, ele diria que o nó era “um abuso de metáfora”…

Ligia Gomes Victora

 
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