Notícias | 15 de abril de 2016

Declaração

15 de abril de 2016

Quando uma prática não consegue se sustentar nos
princípios de sua ética, se transforma no exercício de um
poder.” (J. Lacan)


Quais os princípios de uma ética que correspondem ao exercício da política para que ela não se transforme num mero – e, então, perverso – exercício de um poder?

Certamente, esses princípios foram mudando no curso da história, mas no mundo ocidental atual, se reconhecem como universais os que resguardam o funcionamento democrático. Para cumprir esses princípios fundamentais instituem-se dispositivos de Estado, que distribuem e parcializam o poder de modo a não concentrá-lo todo em um único lugar.

Os atuais movimentos promovidos por diversos atores na política, na direção de destituir autoridades legitimamente nomeadas para o exercício de suas funções representativas, em nada respeitam os princípios éticos acima enunciados. O uso cínico da defesa da moralidade e do combate à corrupção como justificativas, por parte de instâncias comprovadamente envolvidas naquilo que elas mesmas condenam, evidencia a ganância pelo poder a qualquer custo como motor de suas ações.

Como efeito no social, testemunhamos um acirramento do ódio e da intolerância em um discurso polarizado característico de um laço social paranoico. Tal contexto é propício ao surgimento de figuras que se valem dessa condição para justificar ações que desconsideram os princípios do pacto social democrático. Isso dá margem à invenção de circunstâncias de exceção à lei que colocam em risco a estabilidade das instituições que têm por fim garantir a democracia e os direitos dos cidadãos por elas representados.

A depreciação do valor da palavra, manifesta no cinismo imperante nos discursos que sustentam esses movimentos, coloca em risco os pactos que alicerçam o laço social. Nós psicanalistas, que temos como princípio o valor fundamental da palavra na relação ao outro, não podemos silenciar diante desses discursos e movimentos que a destituem de sua condição de enunciação.

Nesse sentido, repudiamos o processo de impeachment da presidente em exercício, consideradas as bases e a forma como esse vem sendo conduzido, por estar fundamentado em um discurso cínico e no uso perverso da lei e da insatisfação popular na busca do poder pelo poder. Não apoiamos partidos ou governos, mas defendemos o respeito aos princípios democráticos que, se ameaçados, colocam em risco as condições básicas de sustentação do laço social.

Esta posição institucional foi estabelecida em assembleia geral de associados realizada no dia 13 de abril de 2016, na sede da APPOA – Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Aqueles que desejarem se pronunciar a respeito podem endereçar suas manifestações pelo e-mail appoa@appoa.com.br

Porto Alegre, 14 de abril de 2016.

APPOA - ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

 

INSTITUTO APPOA – CLÍNICA, INTERVENÇÃO E PESQUISA EM PSICANÁLISE


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