Data: 16/10/2010
Aponto algumas notas do que fazemos quando atendemos crianças – que elementos de suas manifestações tomamos para intervir, e quais intervenções privilegiamos. Não se trata de indicar uma técnica, mas apontar a partir de uma posição ética.ALGUMAS NOTAS SOBRE INTERVENÇÕES NA
CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS
Marta Pedó
A questão que provocou a escrita deste trabalho foi elaborada a mim por alunos que, conhecendo a psicanálise, interrogam sobre as intervenções na clínica com crianças, dizendo-se com dificuldade de situar-se quando o discurso não vem na fala, como ocorre na clínica com os adultos. A partir desta questão, propomo-nos a apontar algumas notas do que fazemos quando atendemos crianças – que elementos de suas manifestações tomamos para intervir, e quais intervenções privilegiamos. Não se trata de indicar uma técnica, buscamos apontar a partir de uma posição ética relativa à psicanálise de crianças, pois pensamos que é preciso lembrar que finalidade terapêutica nos guia.
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As manifestações das crianças são expressas diferentemente daquelas dos adultos, seja porque pouco ou nada falam, seja porque usam do brincar e de outras “línguas”. A psicanálise, por sua vez, foi estabelecida para o atendimento de adultos, tomando o discurso falado pelos analisandos como elemento a partir do qual intervir. Assim, quando atendemos crianças, temos um complicador, pois a expressão do inconsciente precisa de transliteração[1]de uma linguagem a outra, da expressão da criança à intervenção na fala do analista.
Tomamos como formas de expressão legível das crianças o discurso em sua expressão desenhada, escrita, dramatizada, modelada, gestualizada, falada. Cabe ressaltar que tomamos também como manifestação da criança suas “falas aos bastidores”[2], ou seja, a fala que nos é remetida por outros que procuram ajuda em seu nome, sejam pais, educadores ou outros aos quais o apelo da criança tenha feito eco. Consideramos, portanto, que, para a intervenção na clínica com crianças, precisamos tomar também como elementos discursivos relativos à criança essas falas que não são diretamente ditas pela criança, mas por aqueles que em algum momento se fazem cargo de levar a mensagem adiante – mais especificamente a alguém, que pode ser um terapeuta, possa auxiliar com sua escuta e seu saber. Isto supõe uma posição ética, pois implica pensar que na condição infantil há subordinação a determinantes que ultrapassam a criança, que pode deles se fazer mensageira, assim como que outros se façam mensageiros da transmissão de determinantes suportados pela criança em seus sintomas.
Em dados como aqueles relativos à história familiar e sua transmissão, relativos à posição ocupada pela criança em sua origem – encontramos referências que orientam o trabalho da construção das narrativas durante o tratamento. Esses dados situam o sujeito, não muito diferentemente do que se passa com o atendimento de adultos, que testemunham dos ideais, dos traumas e frustrações do núcleo familiar e incidem sobre o sofrimento da criança. Interessa conhecer o ideal, imaginário, familiar; interessa situar a criança enquanto designada como fracasso ou sucesso no cumprimento desse ideal; bem como as repetições que se transmitem na genealogia, como elementos da fala em torno do que a afeta.
2 O infantil na psicanálise
O infantil sempre esteve presente na cena analítica, e Freud não deixou de sublinhar o quanto, em toda neurose, a origem ali se encontrava, no que ele denominava neurose infantil. É assim que, por exemplo nos Três ensaios sobre sexualidade (1905/1977), ele escreve acerca do interesse dos psicanalistas nos fenômenos da sexualidade infantil, dizendo que deles se pode esperar o esclarecimento da configuração originária da pulsão sexual. Em outro momento, sobre o Homem dos Lobos (1914/1977), podemos acompanhar a interpretação que ele faz das experiências infantis a partir do relato de um adulto. Neste texto, Freud discute em profundidade sobre a experiência da cena originária, interrogando se o paciente assistira efetivamente seus pais em cena de cópula e disso se recordava durante a análise, ou se essa cena era uma construção, elaborada a partir de recortes de lembranças e imagens que compunham numa lembrança encobridora. Tanto em uma como em outra hipótese, da recordação de uma experiência vivida ou de uma “falsa recordação”, sabemos que o trauma tem valor de verdade no inconsciente, mas o que quero apontar trazendo o Homem dos Lobos é ao tempo da interpretação do evento. Sergei Pankejev se recorda, durante sua análise, de um sonho do qual despertara na noite em que completaria quatro anos de idade. É a partir desse sonho que ele interpreta a cena assistida (ou construída) da cópula dos pais, antes de completar dois anos de idade. E é depois deste sonho que sua neurose infantil se caracteriza. Não foi um evento traumático, mas um sonho que deflagrou a neurose.
“- ‘Sonhei que era noite... gritei e acordei’. Foi uma imagem muito vívida. Por fim me acalmei e senti como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir” (Freud, 1914/1976, p.45).
Freud pensa que aos quatro anos, com o sonho, Sergei foi capaz de compreender o que observara muito antes. O sonho ativara a cena primária – fazendo-o retornar à organização genital, com a descoberta do órgão sexual feminino e a diferença dos sexos. A partir da interpretação que ele dá ao sonho, o menino constrói como que uma hierarquia sexual - passivo passa então a ser parte da série feminino-devorado-batido, série que passa a ser desejada e recalcada, originando a fobia dos lobos, tal qual um protesto masculino à equação que o coloca castrado e copulado pelo pai. E, Freud salienta, a observação sexual funcionara como uma sedução traumática ao ser retomada no sonho.
Como Freud, pensamos que o sonho retoma a observação, e nos convoca a refletir sobre o que é uma interpretação, à medida que o sonho, como uma interpretação, oferece uma leitura do observado. É com a recordação e o registro do sonho que sabemos que houve interpretação sexual do evento. Uma interpretação que produziu algo de novo - o sentido sexual - pelo efeito do significante no advento da significação. Significação que não é “natural”, mas uma combinação que comporta paradoxalmente presença e ausência, do falo e da castração. (O que faz lembrar Recordar, repetir e elaborar, quando Freud (1914, 1977) questiona se há recordações que não sejam encobridoras, pois elas sempre nos chegam já com a cura – ou seja, a recordação seria mais bem efeito da cura que sua causa).
Seguimos Freud para pensar a interpretação do infantil nas neuroses, desta feita na psicanálise com crianças a partir do tratamento de crianças. Vamos visitar seu escrito sobre o caso Hans (1909/1977), onde podemos acompanhar a concomitância da cura da fobia com a construção das teorias sexuais infantis. Os diálogos de Hans com seu pai enlaçam seus sonhos, medos e descrições de experiências com fabulações sobre suas investigações sexuais de tal modo que somos conduzidos pela leitura a concluir que não há como, para a criança, poupar-se o caminho de construir teorias sexuais viáveis. Teorias que, mesmo sempre singulares, contêm elementos culturais comuns, que lhe permitem a passagem à sublimação e a aventura além da fronteira do Heim[3], conhecido aconchego do lar.
Em geral, diz Freud (1905/1977) em Três ensaios sobre sexualidade, pode-se dizer das teorias sexuais infantis que elas são reflexos da constituição sexual da criança, e que, apesar dos erros, testemunham uma maior compreensão dos processos sexuais do que se pretenderia. (Neste momento, com certeza, Freud dialoga com os adultos de então, escandalizados pela possibilidade de haver sexualidade ou qualquer sombra de sofrimento na infância, a qual preferiam ver num idílico paraíso de querubins).
Criar o novo a partir do exercício pulsional, sublimar, implica na criação de teorias que permitam ao sujeito infantil se situar quanto à própria origem, quanto à própria identidade sexual, quanto ao que pode ser um esboço de escolha de objeto sexual (tarefa a ser completada em nome próprio na adolescência).
Esse saber sexual, além do que os adultos admitiriam, provém da pulsão, da erótica corporal, e floresce entre os três e os cinco anos. Ele se dá em parte pela sublimação da pulsão de dominação e parte da pulsão escoptofílica. São os enigmas sexuais que despertam e estimulam sua atividade, sendo o primeiro deles, da esfinge, de onde vêm os bebês. O complexo de castração, por sua vez, entra em ação por obra da diferença anatômica dos sexos, que convoca o menino e a menina a investigar sobre a questão de maneira diferente logo de entrada, pois, se para o menino inicialmente todos têm pênis, a menina não pode recusar a diferença. Trata-se, diz Freud, de uma fase da infância em que a investigação é solitária, e cujas teorias resultantes representam o primeiro passo de orientação no mundo sem papai e mamãe.
Quero sublinhar que são as pulsões parciais que compreendem a sexualidade humana, na medida em que elas só parcialmente entram na biologia da reprodução. O ser humano tem o privilégio de exercer sua sexualidade subvertida da simploriedade dos fins biológicos da procriação. Conforme Lacan (1979, p.167) “(...) a sexualidade só entra em jogo em forma de pulsões parciais... (entendendo como parciais por apenas parcialmente se relacionarem à função biológica)”.
Ele propõe que nos coloquemos nos dois extremos da experiência analítica para pensarmos a relação entre sexualidade, desejo e a interpretação. Num dos extremos, diz, encontramos o recalcado primordial: um significante, sobre o qual se edifica o sintoma. No extremo oposto, há a interpretação, que aponta o desejo, ao qual ela é, em suma, idêntica; finalmente, no intervalo entre o recalcado e a interpretação, a sexualidade. Literalmente, diz ele:
Coloquemo-nos nos dois extremos da experiência analítica. O recalcado primordial é um significante, e o que se edifica por cima para constituir o sintoma.Na outra extremidade, há a interpretação. A interpretação concerne a esse fator de uma estrutura temporal especial que tentei definir pela metonímia. A interpretação, em seu termo, aponta o desejo, ao qual, em outro sentido, ela é idêntica. O desejo é, em suma, a própria interpretação.
No intervalo, a sexualidade (...).
A legibilidade do sexo na interpretação do mecanismo inconsciente é sempre retroativa. (Lacan, 1979, p.167).
Assim, interpretar coincide com o advento do desejo, e seu efeito é fazer passar de um ponto de repetição do exercício sexual a outra coisa – nessa passagem, a posteriori a interpretação cria seu passado, e o pulsional (que é sempre sexual) até então repetido passa a participar de uma teoria, de uma narrativa com significação sexual.
É assim que Hans, em determinado momento, vai dizer que sempre soube da vinda de Hanna, sua irmã, que estava na caixa (ora caixa do vagão, Wagen, ora caixa da cegonha, ora caixa da carruagem da mamãe) e comia pão com manteiga, arenque e rabanetes nas idas para Gmunden, lugar onde passavam as férias e onde Hans tinha amigos e inúmeros filhos. Mas logo a seguir diz que nada disso é verdade, continuando, ainda assim, a criar as fábulas.
Hans, ao criar teorias viáveis, que o orientem no mundo com referências relativas à sua origem, a uma identidade sexual e um esboço de escolha objetal, interpreta a avalanche pulsional de uma sexualidade desconhecida cujas exigências outrora se via à mercê. Hans constrói sua neurose, diríamos.
3 A interpretação e as intervenções com crianças
Entendemos, junto com outros autores (Porge, 1998; Vorcaro, 1999), que, na clínica com crianças, trata-se de permitir, de dar lugar à constituição mesma da neurose, que por alguma razão faz crise. Que a criança deixe de estar atrelada aos significantes que podem fazer insígnia solidificada para abrir espaço a outros, que não haja cristalização imaginária, que haja possibilidade de criação do novo.
E, também neste sentido, o conjunto das intervenções do analista ultrapassa o campo da interpretação, em especial quando seu trabalho é com pacientes crianças. De maneira geral, dizemos que a interpretação opera na desconstrução, no deslindar o condensado excesso de sentido que provoca repetição do gozo sintomático, ao passo que outras intervenções podem se situar em direção à construção de elementos de sustentação que em determinada estrutura subjetiva estão faltando ou mal alicerçados.
Da interpretação, encontramos no cotidiano uma definição que contempla boa parte do que pode nos guiar no estatuto da interpretação psicanalítica. Dizemos que uma interpretação aconteceu quando um evento tem significação, como quando vemos um quadro numa galeria de arte e perguntamos ao parceiro: como você interpreta isso? A situação exemplo poderia estar na interpretação de um quadro ou um evento escrito, falado ou acontecido.
As primeiras interpretações que as crianças recebem sobre o sentido do mundo provêm da pessoa que se situa como Outro primordial – geralmente a mãe, quando ela apresenta o mundo a essa criança ou quando ela outorga significação ao que a criança produz. Para a mãe, o choro do bebê significa apelo, o grito se torna palavra.
Há diferenças nas interpretações que uma mãe pode oferecer a seu bebê e que resultarão em diferentes efeitos na subjetivação. Assim, Jean Bergès[5]cita o seguinte exemplo para ilustrar a questão: imaginemos duas mães entrando, cada uma, no quarto do bebê, quando ele está-se acordando do sono da tarde. A primeira diz ao chegar – “aqui está frio, vamos fechar esta janela”, e a segunda – “você esta com frio, pequeno, vou fechar esta janela”. Mesma situação com diferentes interpretações de parte das mães. A diferença está em a quem cada mãe se dirige na fala. A primeira mãe fala a quem, quando diz “aqui está frio”? A segunda mãe fala “você”, claramente indicando um sujeito na criança – supondo que essa criança já interprete o mundo, ou que tenha condições de fazê-lo, mesmo que só daqui a alguns anos. Ela lhe oferece um lugar antecipadamente, lugar que seu filho poderá ocupar e que supõe a possibilidade de saber interpretar os eventos do mundo e de criar teorias para si.
O germe do sujeito reside nessas primeiras interpretações antecipadas, que guardam uma diferença para com a interpretação psicanalítica, que é o fato de elas terem mais relação com o que denominamos de construções em análise. No texto que escreveu com esse título, Freud (1937/1977) se refere ao trabalho preliminar à interpretação, quando o sujeito ainda não tem disponíveis os elementos de ligação entre eventos... diferentemente do operar da interpretação, relativo à desconstrução da edificação fixada em determinado ponto de gozo para o sujeito, o operar da construção se situa num preliminar oferecimento de elementos com os quais constituir a edificação da subjetividade.
Uma interpretação não é uma construção, mesmo que de uma construção possa advir uma interpretação ao sujeito. Apontamos à construção como uma primeira forma freqüente do trabalho analítico com crianças. Nisto, concordamos com Simone Rickes (2006), quando ela descreve o trabalho da construção como preliminar.
Além de construções propriamente ditas, há intervenções que não são interpretações e que dão lugar ao trabalho da criança em análise. A mais simples delas, como lembra Erik Porge (1998), é fechar a porta ao entrar na sala de atendimento, deixando quem acompanha na sala de espera. Permitir um lugar - um espaço de transição - já se situa como intervenção, na medida em que situe à criança a possibilidade de seguir o movimento dos significantes que a marcam, de dar-lhes fluxo.
Guardar o material produzido em consultas; registrar as histórias fabuladas, datadas e num certo ordenamento, constitui-se no que podemos denominar de seriação – que consiste em apresentar à criança sua produção numa série de sintaxes. Nela, antes de pontuar determinado elemento ou comparar elementos da sintaxe produzida, ou seja, sem fornecer um ordenamento do tipo construtivo, busca-se oferecer à criança uma memória em série, a qual ela poderá utilizar para construir.
Interrogar por algum elemento de uma série estabelece cortes no fluxo que, de outro modo seria contínuo. A interrogação participa, junto com a pontuação das intervenções que implicam, no mínimo, na decisão sobre que elemento destacar de determinada série, ressaltando insistências metonímicas ou incidências metafóricas. Pontuar fica na vizinhança de apontar a presença de um elemento codificado a ser decifrado e implica uma hipótese por parte do analista.
Freud (1909/1977) intervém em sua primeira visita demarcando contornos que o pai não poderia perceber, assim estabelecendo a suposição de Hans de que o doutor falava com Deus.
Naquela tarde, pai e filho me visitaram nas horas de consulta. (...) ao ver os dois sentados á minha frente, e ao mesmo tempo ouvir a descrição que Hans fazia da ansiedade que lhe causavam os cavalos, vislumbrei um novo elemento para a solução, e um elemento que eu podia compreender que provavelmente escapasse a seu pai. Perguntei a Hans, à guisa de brincadeira, se os cavalos que ele via usavam óculos, ao que ele, contra toda evidência em contrário, repetiu que não. Finalmente lhe perguntei se para ele ‘o preto em torno da boca’ significava um bigode (...)(p.51-52) .
Freud marca determinado ponto no que Hans relata, diremos que ele pontua. A pontuação opera como uma demarcação que abre a possíveis vias outras de seguimento associativo, como no exemplo a seguir:
Um menino em suas primeiras consultas desenha, ou melhor, preenche o quadro-negro de giz e, após, apaga uma área central. Afasta-se, olha o desenho, e traça um rabiscado contínuo no espaço vazio. Volta a olhar. A analista demarca com um traço em volta do rabisco, e ele diz: “- Éé...(olhando o rabisco demarcado como se ele e analista estivessem a fazer a mesma leitura)... é a assinatura de um médico”.
Algumas sessões adiante, o menino preenche o quadro-negro com inúmeras repetições da forma H (não indicando se tratar da letra H).
A analista lê: “- H... Como é a inicial do teu nome”.
Ele acrescenta: “-... e de hospital”.
Conhecemos o seguimento da série metonímica hospital em que nasceu, hospital em que trabalha a mãe, hospital onde há medicamentos e drogas, das quais a mãe depende... série a que a pontuação anuncia, mas não a interpretamos. Pensamos, para essa pontuação, que a letra, H, ao cair e ser apontada pelo psicanalista, pode-se deslocar do lugar em que se encontra na seqüência a outro ponto e provocar novas derivações na cadeia significante. A hipótese que nos guia é de assim destacar a criança dos significantes que operam para ela como insígnia sintomática solidificada. O operar é sempre na direção de uma abertura.
O fato de que essa letra seja falada pelo psicanalista, não apenas apontada com o dedo, por exemplo, pensamos fazer diferença na clínica, pois sabemos da importância da incidência da voz na criação das homofonias – caminhos de equívoco pelos quais circulam e se enlaçam significantes. Interpretação é aquela que faz a transliteração, ou seja, o que estava codificado num registro ao ser decodificado e passado à linguagem falada pode-se deslocar. A interpretação é escutada, pois ali a homofonia (e, conseqüentemente, a possibilidade de novas ligações significantes) pode-se apresentar.
Freud (1909/1977) nos lembra da importância da ligação entre os elementos da linguagem pela sonoridade numa nota de rodapé do seu texto sobre Hans, a partir do seguinte diálogo entre o menino e seu pai (aqui como Eu):
‘Eu: “- E como foi que você ficou com a ‘bobagem’?”
‘Hans: “- Foi porque eles ficavam dizendo ‘por causa do cavalo’, ‘por causa do cavalo’ (ele acentuou o ‘por causa’); então, talvez, fiquei com a ‘bobagem’ porque eles falavam daquele jeito, ‘por causa do cavalo’.
Nota de rodapé de Freud: [Wegen dem Pferd]. [...] devo completar aquilo que o menino era incapaz de expressar, e acrescentar que a pequena palavra ‘wegen’ [por causa de] foi o meio que favoreceu a fobia estender-se, desde cavalos, até ‘Wagen’ [veículos], ou ‘Wägen’ [que se pronuncia como wegen], como Hans estava acostumado a pronunciar e ouvir pronunciarem. Jamais se deve esquecer como as crianças tratam as palavras, mais concretamente do que o fazem as pessoas adultas, e, em conseqüência, como também lhes são significativas as semelhanças sonoras das palavras (p. 68).
A respeito da relevância da voz escutada, ainda, Freud (1923/1977) diz em O Ego e o Id que é em especial pela voz dos pais (e seus coortes) que se constitui o ideal do eu, voz da consciência. Ainda, acrescenta que é da revolta contra esse ideal exigente que surge o desejo.
Porém, se a voz tem importância, não raras vezes estamos na clínica confrontados com crianças que mais dão a ver do que narram e refletem, recaindo nosso problema em como sair da armadilha imaginária, da armadilha da imagem dada a ver como forma de espetáculo que faz calar, por vezes espetáculo dado a ver como forma de defesa pela intimidação ao que a criança supõe capaz de confrontá-la com sua própria revolta.
“- Por que as onças pintadas do Pantanal não atacam as crianças?”...
“– Porque são pintadas!”
Para além do espetáculo enganoso, do dar a ver para intimidar a voz da consciência projetada no adulto, pensamos que no tigre de papel, na máscara da fábula, no jogar o papel (to play the roll), podemos encontrar duas características importantes da infância. A primeira delas é de que a gestualidade na infância tem relação com a gestualidade do pintor, que ao final dá a ver, e, assim fazendo, inverte a temporalidade usual (do adulto), que primeiro vê, para então operar no tempo de compreender, e, finalmente, concluir. Como diz Eda Tavares (1998) uma criança faz arte, e, neste sentido, cria enquanto abre espaço, que qualificaríamos de em viés, pois ao ser meio obliquado, meio de lado, introduz nuances de luz, sombra, profundidade, proibido, enigmático e complexo, contrapondo-se ao “chapado” linear e invocante da transparência presente no olhar (protetor, cuidador, cristalino e sempre crítico) relativo ao ideal narcísico parental.
A segunda é de que as imagens são simbólicas e, à semelhança dos rébus presentes nos sonhos, apresentam-se como linguagem a ser decodificada, para além do aspecto figural em que se apresentam[6]. É assim que encontramos, nessas “línguas” das crianças, mais expressas muitas vezes em imagens do que em palavras, algumas modalidades de expressão que abaixo relacionamos:
Pensamos encontrar em todas elas elementos comuns aos do sonho, quais sejam:
Seja na seriação, corte, pontuação, construção ou interpretação, na clínica com crianças operamos privilegiadamente na metonímia, no seguimento da cadeia de significantes que se apresentam em série, favorecendo o aparecimento de equívocos e reticências, mais do que interpretando de maneira conclusiva. A idéia é de oferecer através da voz a reverberação, o ressoar daquilo que, podendo por um momento se desligar da significação estanque, reduz-se ao ver-se equívoco, e dali pode passar a outra significação. Busca-se assim destacar a criança de seus significantes, que funcionam como insígnia solidificada. Ou seja, sempre abrindo, nunca fechando. A interpretação, ao abrir, convoca o equívoco, o sem-sentido, o novo, o outro sentido, fazendo falha na cristalização imaginária da semântica do Outro que determina o sentido.
4
A psicanálise sempre esteve às voltas com o infantil, mesmo quando se trata da neurose infantil que se apresenta na clínica com sujeitos adultos. (Aquilo de que mais falam e sofrem nossos pacientes, do funcionamento repetitivo de um exercício pulsional que se impõe a eles soldado a determinados significantes, reside no infantil a ser interpretado).
As intervenções na clínica psicanalítica com crianças, tal qual aquelas na clínica com pacientes adultos, continuam sendo intervenções sobre formações do inconsciente, com suas peculiaridades, pois são formações que se expressam num modo discursivo cuja língua figurada requer decodificação, para além da pregnância da imagem tantas vezes enganosa.
No caso de Hans, Freud trabalha com intervenções que:
Hans termina seu trabalho sobre a “bobagem” munido do crédito que o bombeiro lhe outorga trocando seu traseiro e seu pipi por maiores, bem como de teorias sexuais que acompanharam a investigação analítica. Teorias que pensamos criar o novo pela passagem da erótica corporal à dimensão simbólica. Freud (1905/1977), num trecho da discussão desse caso, reflete sobre sua posição ética na direção do tratamento, como no seguinte fragmento que transcrevo:
O sucesso terapêutico, entretanto, não é o nosso objetivo primordial; nós nos emprenhamos mais em capacitar o paciente a obter uma compreensão consciente dos seus desejos inconscientes. E podemos atingir isso trabalhando com base nos indícios que ele expõe, e assim, com a ajuda da nossa técnica interpretativa, apresentar o complexo inconsciente para a sua consciência nas nossas próprias palavras[7]. Haverá um certo grau de semelhança entre o que ele ouve de nós e aquilo que está procurando, e o que, a despeito de todas as resistências, está tentando forçar caminho até a consciência; e é essa semelhança que vai capacitá-lo a descobrir o material inconsciente. (...) Estão esperando demais quando pensam que vão curar o paciente informando-o sobre essa parcela de conhecimento; pois ele nada mais pode fazer com a informação, a não ser fazer uso dela para ajudar a si mesmo a descobrir o complexo inconsciente onde ele está ancorado no seu inconsciente (p 127).
REFERÊNCIAS
Allouch, J. (1995). Letra a letra: traduzir, transcrever, transliterar. (D. D. Estrada. Trad.) Rio de Janeiro, Brasil: Campo Matêmico Editora.
Freud, S. (1977). Três ensaios sobre sexualidade.In (P. D. Corrêa, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol.7, pg. 123-253). Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1905)
Freud, S. (1977). Análise de uma fobia em um menino de cinco anos.In (J. C. Pavanelli, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol. 10, pg 11-154 Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1909)
Freud, S. (1977). Recordar, repetir e elaborar.In (J. O. A. Abreu, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol. 12, pg 11-154). Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1909)
Freud, S. (1976). História de uma neurose infantil. In (E. A. M. Souza, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol.17, Pág. 11-153). Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1918[1914])
Freud, S. (1976). O estranho. In (E. A. M. Souza, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol. 17, Pag. 271-319). Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1919)
Freud, S. (1976). O ego e o id. In (J. O. A. Abreu, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol. 19, pg. 11-81 Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1923)
Freud, S. (1976). Construções em Análise. In (J. O. A. Abreu, Trad.). In J. Salomão (org.). Edição StandardBrasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. (Vol. 23, pg 289-304Paginas?). Rio de Janeiro, Brasil: Editora Imago (Original publicado em 1937)
Lacan, J. (1974). Télévision. Paris, França: Le Seuil.
Lacan, J. (1979). O Seminário: Livro XI – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (M D Magno, Trad.) Rio de Janeiro, Brasil: Zahar.
Porge, E. (1998). A transferência para os bastidores. In: Littoral: A criança e o psicanalista. Rio de Janeiro, Brasil: Companhia de Freud Editora.
Rickes, S. (2006). Construções em análise: apenas um trabalho preliminar. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. 30,(pg. 227-234).
Tavares, E. (1998). O brincar na clinica com crianças. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 14, 54-67.
Vorcaro, A. (1999). Crianças na psicanálise: clínica, instituição, laço social. Rio de Janeiro, Brasil: Companhia de Freud Editora.
[1]Transliterar é uma expressão que tomo emprestada de Jean Allouch, que, em sua obra Letra a letra (1995), descreve o operar da passagem de uma linguagem a outra. De um modo diverso de uma tradução ou decodificação, a transliteração implica em trasladar o que está cifrado à linguagem da intervenção e através da voz expressar a interpretação.
[2]Falar aos bastidores é uma expressão que vem de Jacques Lacan no seu texto Television (1974), que a utiliza para referir-se à fala dos atores no teatro que falam àqueles que detrás dos bastidores compreenderão a mensagem, mas que falam como se a esmo, dando a impressão de que apenas atiram a fala ao vento. Essa expressão foi retomada por Erik Porge (1998) em seu texto A transferência aos bastidores, referindo-se ao modo pelo qual as crianças fazem transferência com os analistas.
[3]Heim é a palavra alemã cuja tradução em inglês é home, em português lar, casa. Heimlich é o adjetivo dela derivado, que significa o conhecido. A expressão também se liga em oposição ao Unheimlich, em português o Estranho, termo usado por Freud (1919/1977) para situar o estranho familiar, o sinistro desde muito conhecido.
[4]Proponho aqui pensar também no exercício da sexualidade, para além do descrito em Freud (1905/1977) em seus Três ensaios,na sexualidade como a escutamos desde o sofrimento neurótico, atrelado a um modo de repetição cujo enredo erótico ele mesmo desconhece.
[5]Durante sua Conferência: Bergès, J. (2000, novembro. Título do trabalho apresentado. Brasil 500 anos, Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Brasil.
[6]Uma colega falava-me de sua filha que, após uma briga com ela, senta e desenha a figura de uma menina, ou mulher, cuja cabeça se prendia ao corpo apenas por um pescoço muito frágil, que mal se podia ver. Assim que a filha lhe entrega, essa colega ri e diz “Essa aqui perdeu a cabeça!”, entendendo a mensagem da filha como endereçada a ela: - “Mãe, você perdeu a cabeça!”, mas que bem poderia ser a própria mensagem invertida – ela mesma, a filha, tendo “perdido a cabeça”.
[7]Em itálico no original.
Autor(es): Marta Pedó
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