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2012

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Resenha

OFÍCIO DO PSICANALISTA.
FORMAÇÃO VS. REGULAMENTAÇÃO

Sônia Alberti, Wilson Amendoeira, Edson Lannes, Anchyses Lopes e Eduardo Rocha (orgs.)
Ofício do psicanalista. Formação vs. Regulamentação.
São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.197p.

Trata-se de uma coletânea de textos organizados com o objetivo comum de levar adiante o debate sobre a questão da ameaça de regulamentação da profissão do psicanalista e ajudar a promover, no futuro, um fórum das entidades psicanalíticas brasileiras, para dar continuidade ao trabalho da "Articulação" (Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, movimento criado em 2000). O livro vai muito além de uma advertência para os descaminhos que a psicanálise possa sofrer diante desta proposta. Encontramos em suas páginas uma panorâmica da união dos psicanalistas de várias instituições do Brasil - cada uma encontrando seu modo de interpretação na leitura particular do conceito de transferência, inclusive divergindo em torno de questões como os requisitos para a formação de profissionais - no esforço conjunto contra a imposição, que não é de hoje, de uma regulamentação da formação analítica vinda de fora, seja pelo Estado ou pela sociedade civil. A tendência a incluir a psicanálise no campo das psicoterapias, sem levar em conta a distinção que existe entre essas duas áreas clínicas, vem ganhando força no Brasil, assim como em alguns países europeus. Para evitarmos tal dano, mais do que nunca é importante retornar à Freud e lembrarmos, esforço que esta coletânea faz de maneira exemplar, que a psicanálise é leiga, porque se constitui estritamente sobre um saber da causalidade psíquica e portanto, não se resume ao conhecimento técnico. Pelas particularidades do que está em jogo no tratamento psicanalítico, em que o psicanalista abstém-se do saber da mestria, abrindo caminho para um saber regulado pela resistência interna do sujeito, produzido no tempo da transferência (quando tomará valor de verdade), toda e qualquer forma de regulamentação externa, dita oficial, produz necessariamente uma impossibilidade da psicanálise manter-se viva tal como ela vem sendo praticada desde a sua invenção por Freud. Esta advertência, feita pelos psicanalistas que participam desta obra, certamente não diz respeito a um esquecimento que o cotidiano do fazer psicanalítico introduziu a ponto de pensarmos que podemos prescindir desse traço da psicanálise, e portanto devemos fazer um resgate de sua memória histórica. Nenhum psicanalista precisaria ser lembrado disto. O valor dela é sim numa retomada histórica, mas que aponta para, hoje, a psicanálise novamente precisar fazer frente a esta resistência do mesmo modo que Freud, em 1926, teve de fazê-lo quando defendeu Theodor Reik. Mais uma vez ainda os psicanalistas precisam vir a público para defender o lugar da psicanálise, lembrando de seus preceitos fundamentais contra projetos de leis, instituições que deturpam os conceitos psicanalíticos em cursos e programas de treinamento com a promessa de diplomação e certificação do lugar de psicanalista ao final, por vezes ainda com o agravante de avalizar tal posição sem que o candidato precise passar pela experiência de uma análise pessoal. Da mesma forma que o texto freudiano "A questão da análise leiga", eminentemente político, esta obra de psicanalistas brasileiros também se reveste dessa função. Mas a política que interessa à psicanálise encontrou na palavra "articulação" o lugar certo. Ele exprime o trabalho necessário para este desafio. Encontramos no livro manifestações do desejo de manter esta articulação aberta não apenas para o presente momento, e de uma forma respeitosa às divergências institucionais que existem no Brasil e no mundo em relação ao que se prioriza deste saber e no quanto isto incide no desenvolvimento psicanalítico, permitindo um diálogo e a continuidade do seu saber e fazer psicanalítico. Lembremos que Freud nos alertou desta tarefa e, apesar de salientar do impossível da regulamentação vinda de fora do campo psicanalítico, afirma também que a psicanálise não está isenta de certas leis, mas que elas estão ancoradas na relação entre o inconsciente e o discurso. E isto faz toda a diferença! A psicanálise é um ofício e não uma profissão. Está em constante movimento e a formação do psicanalista nunca se dá por terminada, justamente porque o saber que está em causa consiste num confronto do sujeito com a sua castração num corte que incide na relação deste com a verdade e isto recomeça a cada início de análise, a cada novo analisante que chega. Convido a leitura desta coletânea cujo conteúdo excede uma manifestação reivindicatória do lugar da psicanálise, através de um cuidadoso e difícil (porque precisaram sair do cotidiano clínico e institucional) posicionamento por parte dos psicanalistas diante das instâncias desejosas em realizar a "boa e apropriada" regulamentação da profissão. É lançada aqui uma posição crítica e ética em face às tentativas em instituir-se autoridades com poder de lei, inclusive as próprias instituições psicanalíticas, já que mesmo estas podem tentar colocar-se como substitutos da nossa radical falta-a-ser. Para fazer jus ao que é traçado no livro, resgata-se, em sua leitura, além da perspectiva histórica (política), reflexões já estabelecidas por Freud e Lacan no diálogo com outros campos discursivos, tais como a Ciência, a Religião e a Universidade. Apesar dos pontos de impasse, devido a uma lógica discursiva própria, fica-nos claro que não se pode correr o risco de um confinamento da psicanálise, um fechar-se em si mesma, seja para o resgate de uma dívida conceitual com estes saberes que contribuíram para a fundação e o desenrolar do campo psicanalítico, ou para favorecer um estudo teórico numa perspectiva epistemológica e crítica que funcione como lugar de alteridade para o espaço formativo. A consistência mesma do que é psicanálise é retomada e reafirmada a ideia de que uma abertura continua sendo necessária, mas de uma forma ética, ligada à transferência de trabalho; e a tríade - análise pessoal, supervisão e estudo teórico - não pode ser esquecida. Faço minhas as palavras de Sônia Alberti, uma das organizadoras e autoras do livro: "(...) juntos (...) para enfrentar este ataque e conversar entre si sobre as dificuldades e esperanças do crescimento desse discurso que se sustenta, sobremaneira, na ética do psicanalista. Este livro convoca ao debate!" Faz mais, excede o debate, já que retoma textos fundamentais e de grande importância na história do movimento psicanalítico e inclui, na parte final, o "Manifesto de Entidades Brasileiras de Psicanálise" que apresenta e preservam o patrimônio da psicanálise, no que diz respeito ao campo da assistência, representado pelos tratamentos às pessoas que fizeram uma procura pela análise e pela responsabilidade social de tais instituições no formação de analistas. Somadas, são sessenta e cinco instituições, Boa leitura a todos!

Márcia da R. Lacerda Zechin



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