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EDITORIAL - REVISTA N° 49 - CORPO: ficção, saber, verdade (Volume I)

A psicanálise ocupa-se da temática do corpo desde o seu princípio. Encontra-se em Freud, nos seus primeiros escritos, a indicação de que, como humanos, tem-se uma relação em nada natural com o corpo. A linguagem, então, através das formações do inconsciente, faz ali sua marca. As bases lançadas por Freud serviram para que Lacan, na sua releitura da obra freudiana, encontrasse elementos para propor novos desdobramentos conceituais. Nesta perspectiva, a proposição do laço discursivo, como o que faz laço social, é de fundamental importância para situar a temática do corpo, pois indica, assim, a posição do sujeito na relação com a linguagem.

As relações que tecemos com o corpo são paradoxais. Da certeza de possuí-lo e não poder dispensá-lo, aos estranhamentos que muitos de seus sinais produzem, resta o caminho de tentar domesticá-lo, na busca vã de controlar o incontrolável: o estranho que nele se anuncia, vez por outra, em suas afetações. Sempre retorna a certeza de tê-lo, mas será que o ser se aloja ali?

Dessa pergunta muito se ocupou a filosofia, pelos caminhos da clivagem corpo/alma, da qual o espírito cristão se apossou. Neste, o lugar do corpo segue a via do sacrifício, tão bem encarnado na figura do mártir. Herdeira dessa clivagem, a ciência - na sua máxima realização pelo cartesianismo - ajudou a cavar um fosso inexistente, nomeado como corpo e linguagem. As vias empreendidas a partir daí não cessaram de ampliar essa questão. Dessa forma, invertem-se as condições do controle: o corpo é esse Outro que nos domina! A alma aplainou-se, perdendo a condição de pensamento, fazendo do biológico e do orgânico o definidor de destinos. O destino, não mais lido nos astros, desloca-se para as salas de exames médicos, onde há o risco de que o sujeito fique de fora, deixando que a máquina pense sozinha.

A atualidade do estudo da temática do corpo para a psicanálise, no seu diálogo com outros campos de saber (como a sociologia, a filosofia, a literatura, a medicina), resulta das questões que a escuta da clínica nos coloca. Seja através das inibições, angústia, compulsões, ou mesmo do exercício sexual, faz-se importante indagar sobre o que surge como efeito de inscrição do corpo no discurso, no discurso, ou mesmo do impossível em causa nessa inscrição. Assim, situar o corpo no enlaçamento real/simbólico/imaginário implica o trabalho do sujeito em torno do que constrói como ficção, como saber e como verdade.

 

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