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EDITORIAL - REVISTA N° 48 - TRAUMA CORPO DISCURSO

Freud produz uma ruptura no pensamento de sua época ao estabelecer uma relação entre trauma e sexualidade. A psicanálise, que vinha ganhando consistência, difundiu-se na cultura a partir da ideia de que a causa da neurose teria relação com um trauma de caráter sexual, e que somente a posteriori ele seria ressignificado pelo sujeito. Mais adiante, Freud revê essa primeira teoria, incluindo a fantasia inconsciente como provável desencadeante das neuroses, e sublinha a importância da realidade psíquica a partir da qual considera não haver distinção entre verdade e ficção.

 

O conceito do trauma é retomado por Freud diante do sofrimento dos combatentes na Primeira Guerra Mundial, com quadros clínicos de intensas dores psíquicas. Nessas circunstâncias, observou que a vivência traumática fixava o doente em sonhos que repetiam as terríveis cenas vividas, constatando que essa repetição abalava sua ideia sobre a função de realização do desejo no sonho. Confrontado com esse cenário, Freud se impõe a necessidade de uma revisão teórica, o que é proposto em Mais além do princípio do prazer [1920]. Nesse texto ele desloca o princípio do prazer como o mais elementar do funcionamento pulsional e mostra que algo escapa, dando lugar à compulsão à repetição, com o reconhecimento da pulsão de morte.

Lacan, a partir da releitura que produziu da obra de Freud, propõe novos desdobramentos conceituais. Reafirma a importância da realidade psíquica e do a posteriori no trauma, e enfatiza como central aquilo que permanece fora da inscrição no inconsciente, o real. Ainda nos fala de troumatisme ao considerar a dimensão traumática na própria fundação do sujeito, quando do encontro/desencontro do corpo com a linguagem – demarcando a perda do instintual – e a entrada do pulsional em sua articulação com o discurso, evocando a experiência do desamparo originário do humano.

Diante da cena contemporânea, propícia a catástrofes e violências que afetam e impactam a vida psíquica das pessoas, qual seria a direção do tratamento? Para Lacan, o encontro com o real, encontro inassimilável, na forma de trauma, indica a falta de representação e pode nos ajudar a pensar o que se coloca em jogo nesse tipo de experiências. É a partir do dizer na transferência, da fala, do reencontro da palavra, que a ficção inventa e tenta escrever uma borda ao real, um anteparo, um efeito de verdade à função significante. A fantasia, como bem observou Freud, pode cumprir um papel bastante protetor nessa situação, e a realidade psíquica ganha o estatuto de verdade.

Freud já havia considerado que a interpretação do conteúdo inconsciente não era suficiente para dar conta do que se problematizava no humano, referindo de maneira muito clara que o tratamento dos sofrimentos teria de passar necessariamente pela talking cure. É a partir desse exercício de fala que a psicanálise põe em ação o que lhe é próprio, criar condições de enunciação para o que “sobra” e que afeta o sujeito.

 

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