Freud interessou-se pela memória desde os primórdios da psicanálise. Dizia que as histéricas sofriam de reminiscências, lembranças que, recalcadas, retornavam sob a forma de sintomas conversivos. Nesses casos, a cura seria rememorar. Com suas pacientes, percorreu os labirintos das lembranças, obstinado que estava em encontrar a cena que denominava de traumática: aquela que, por efeito do recalque, não teria sido integrada às recordações, muito embora continuasse numa atividade silenciosa expressa nas formações do inconsciente.
Porém, Freud não tardou a perceber que a cena traumática constituía uma formação secundária, a qual, seguindo a via associativa de traços mnêmicos, era construída ulteriormente no tempo do recordar (2º tempo), como tendo sido vivida anteriormente (1º tempo), no tempo da infância. Não era o acontecimento em si mesmo que tinha ação traumática; esta somente se realizava por sua revivescência quando, na adolescência, se remetia ao sentido sexual. Era nesse momento que o acontecimento vivido no primeiro tempo assumia o caráter de uma experiência sofrida passivamente, pois pertencia ao momento em que advinha, do adulto, o significado sexual da cena, e supostamente o desejo. E é por essa razão que ao “traumático” sempre estará associada a condição de objeto sexual do desejo do Outro. Com isso, a cena traumática passa a ser concebida como a construção necessária de um ponto de origem a partir do qual o Eu pode desejar e contar sua história. Desse modo, a materialidade factual cede lugar à realidade psíquica, quando a direção é desvelar a verdade do sujeito que o sintoma carrega consigo. Assim como na construção das lembranças, o tempo que opera nas formações do inconsciente não é linear; é o tempo a posteriori, chamado por Freud de Nachträglich: o que surge no segundo momento funda o anterior como primeiro e originário. Aprendemos com Freud e Lacan a percorrer as representações e os significantes que compõem a história de uma vida, na aposta de que, em suas idas e vindas, emerja o significante da captura no desejo do Outro, ponto de alienação fundamental que o Eu tratará de ratificar com o sintoma. O simples fato de assumir a palavra para contar sua história implica a tomada de posição do sujeito na “escolha” dos significantes que o representam. Lacan é categórico: guiar-se pelo saber e técnica psicanalíticos equivale a promover uma prática ortopédica, orientada pela identificação ao analista; e uma prática perversa, baseada na obstrução, pelo objeto a, da falta que funda o desejo. A transferência e o desejo do analista são os únicos indicadores confiáveis para operar o corte na identificação do ao objeto a que o aliena, objeto do qual o analista apenas faz semblante; única forma de ter acesso ao fantasma que aparta o sujeito de seu desejo. Esse corte, operado pela interpretação e pelo ato psicanalíticos, relançará o a um novo começo, a um novo desejo, a uma nova versão da origem. Contudo, o significante que funda o ainda advém do campo do Outro, como na cena traumática freudiana; quanto a isso, não há escolha, ou, se houver, ela é forçada. O que o analisante poderá fazer, na cura, é enlaçar esse significante primordial a outro significante presente na bateria de que dispõe e, com isso, alterar a significação. Ao mesmo tempo em que o des cobre algo novo, se demonstra a validade do que já sabia, operação lógica que, inevitavelmente, irá requerer do Eu uma nova organização do sintoma e da história, a partir dos quais desejar e se contar. Tempo, ato e memória renovam-se na concepção lacaniana, para que o inconsciente seja escutado. Lacan os apresenta imbricados segundo a lógica do significante, fazendo, com isso, “tremer todas as tripas do ocultismo”, da burocratização e do senso comum.
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