Sul 21 | 05 de dezembro de 2017

A origem, ainda

05 de dezembro de 2017
Autor(es): Robson de Freitas Pereira

As estórias vividas pelo professor Langdon, dublê de historiador e herói criado por Dan Brown, tem uma enorme afinidade com uma aventura cinematográfica hollywoodiana. Não por acaso várias delas foram levadas à tela (com Tom Hanks encarnando o personagem); pois durante a leitura visualizamos os frames, os closes, os espaços deixados para que uma edição bem feita possa dar o ritmo acelerado e adequado a uma trama envolvente.

Nos últimos tempos, ou melhor, nas duas últimas aventuras nosso professor especialista em símbolos e história das religiões enfrentou situações difíceis, onde outros personagens extremamente inteligentes e ricos (é bom que se diga. Mas ficaram milionários a custa de muito e vertiginoso trabalho) propunham soluções para alguns dos mais urgentes perigos que assolam a humanidade. Premissa óbvia; para exercitar suas habilidades excepcionais o herói tem que se encontrar, entrar em confronto com oponentes à altura. Todo Super-Homem tem seu Lex Luthor visionário ou alucinado conforme a leitura que seja feita. Nosso leitores, seguidores de quadrinhos (graphic- novels), poderão dizer que o cientista arquiinimigo da identidade secreta de Clark Kent saiu de cena há algum tempo, dando lugar a um Batman que confronta o "homem de aço" oriundo de outro planeta, com auxílio dos prodigiosos avanços tecnológicos terráqueos.

Os prodígios da ciência e sua capacidade de prevenir, ou pelo menos, combater o mal (qualquer que ele seja), este é o nosso tema. Lembremo-nos que no século passado o cinema nos deu "Estes homens maravilhoso e suas máquinas voadoras". Hoje, para explicitar um pouco mais, vamos as narrativas: no livro anterior , "Inferno" que já foi exibido nos cinemas e está disponível para tvs em suas diferentes plataformas, um "visionário" cientista encontrou a solução para o problema da crescente superpopulação que ameaça consumir todas as reservas de água potável e alimentos da terra. Com ajuda da tecnologia biológica mais avançada existente, inocular na água potável um vírus imperceptível que aniquilaria um terço da população mundial. Simples não? Bem ao gosto de certa parte do eleitorado que anda sedenta por soluções rápidas, fáceis e mágicas. Nada de complexidade, inclusões e diferenças muito complicadas: preto é preto, branco é branco, bandido é bandido, mocinho é mocinho, político é ladrão. Ponto.

Na novela de Dan Brown não fica claro como seriam feitas as escolhas: se a coisa seria aleatória (o cálculo matemático possibilita isto) , por eugenia ou pagamento de propina. O certo é que a trama tem seu desfecho numa das cidades mais turísticas da Europa ( não direi qual é).

Pois bem, em sua última narrativa editada em português, "A origem", homônimo do título brasileiro do filme de Chris Nolan (Inception), Robert Langdon vê-se envolvido numa trama em função de um ex-aluno e atual amigo. Outra mente brilhante que tem objetivo inabalável de contribuir para o avanço de nossa cultura. Com auxílio da ciência computacional desenvolve logaritmos e inteligência artificial capaz de responder a duas singelas perguntas: de onde viemos? Para onde vamos? [1] Nesta conjuntura onde os brasileiros e outros cidadãos do planeta, das mais diferentes formações e classes sociais, repetem Sto. Agostinho (mesmo inconscientemente) dizendo "inter feces et urinam nascimur" e não vislumbram coisa muito melhor do que mais do mesmo para 2018, aparecer alguém com certeza para onde vamos é um alívio. Um bálsamo para nossas angústias cotidianas.

Entretanto, todo milagre tem seu preço. Primeiro: o amigo do professor Langdon é ateu convicto. Sua descoberta aponta para uma origem laica do universo e, da humanidade. Nada de sopro divino sobre o barro, expulsão do éden ou centenas de virgens esperando o mártir decidido. Além disto, esta laicidade representada pela tecnologia vai provocar uma mutação em nosso corpos e mentes que em pouco tempo iremos na direção de interrogar o que é real, o que é realidade ou prótese. Evolução darwiniana incorporada aos tempos atuais. Resultado: vai ter que negociar com os três grandes monoteísmos o anúncio que poderia ameaçar nossa crença nos sete dias que abalaram o mundo (ops: saiu uma paráfrase do centenário de 1917, apud John Reed).

Segundo: apesar de não ser religioso, e até ter suas diferenças com a igreja explicadas psicologicamente (uma ordem fundamentalista teria maltratado sua mãe. Nada de abuso sexual vamos deixar claro), o jovem salvador tem uma fé pétrea na inteligência virtual e sua capacidade de aprender com os humanos que os criaram. Aí mora o perigo: aprendem até os mesmos erros e podem encontrar, novamente, soluções bem ao gosto de uma cultura que preserva o fascínio pelo espetáculo e pela transparência simultaneamente. Em outras palavras, não há limites para o que se pode fazer em nome de alcançar uma audiência planetária. Fazer o bem justifica qualquer mídia.  Voltamos ao ponto de partida: estamos entregues a nossa própria fragilidade, nosso tempo evanescente. Talvez aí resida uma possibilidade de inventar algo diferente, mesmo quando quase tudo parece estar destinado ao caos e brutalidade. Uma transmissão possível, mesmo que não alcancemos o poder central.

[1] A relação entre cinema e novela escrita, com este tema, não é nova. "Quo Vadis?" romance de Henry Sienkiewicz, publicado em 1895, teve várias adaptações para as telas começando em 1901, passando por1951( a mais conhecida) até 2001.

 



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