Sul 21 | 07 de agosto de 2017

Autismo: causas e tratamentos em discussão

07 de agosto de 2017
Autor(es): Alfredo Gil

O debate em torno do autismo tem sido intenso, ao menos nestes últimos cinco anos, tanto no Brasil como na França.

Na França, em 2012, o autismo foi considerado prioridade nacional, "causa nacional". Desde então, em nome das causas dessa expressão do sofrimento psíquico um grande número de protagonistas tem confluído: aqueles que dele padecem, suas famílias, os profissionais na área da saúde e da educação, além de representantes da classe política (legiferando sobre a questão), sem contar os pesquisadores, bastante heterogêneos em suas abordagens, interessados em alianças por vezes financeiras, que estão aí em jogo.

Há dois meses, em 6 de julho, foi votado na França, pelo novo governo do Presidente Emmanuel Macron, o "quarto plano autismo" - apesar de várias das medidas propostas nos três primeiros planos estarem longe de terem sido concretizadas.

Qualquer perspectiva pela qual se trate esta questão, segundo o lugar e a função de cada um, enquanto pais de uma criança com autismo, profissional, político ou outro, existem alguns pontos nos quais todos estamos de acordo: por exemplo, a necessidade da criação de dispositivos especializados no tratamento das pessoas com autismo.

Parêntese: o debate em torno do autismo tem se tornado tão complexo que cada sentença parece trazer em si sua oposição. Certo, afirmamos que há necessidade de novos dispositivos especializados, mas, ao mesmo tempo, e paralelamente, existe uma lei que exige que toda criança com autismo tenha inscrição numa escola regular, pois esse era um dos ideais do primeiro "plano de autismo" redigido há mais de dez anos. Vejam bem o tipo de controvérsia que emerge: se meu ideal é de normalização, pretendendo que a criança autista possa ter seu lugar numa escola qualquer, seu desenvolvimento se fará, como para todas outras crianças, diante de um professor que transmite o mesmo conteúdo, sem tratamento diferenciado. Mas, se admito a necessidade de uma educação e de um tratamento especializados, devo aceitar que ela saia da norma pela sua diferença, e que esta exige um outro saber-fazer institucional. Na prática, sabemos que um acompanhamento pode ser híbrido: um tempo na escola e outro num centro especializado. Acontece que, se de uma lado, alguns pais estimam que o melhor para seus filhos é a primeira orientação,e que tantos outros preferem a segunda, e de outro lado, o âmbito político busca satisfazer ambos os lados, com seus sucessivos "planos de autismo", os impasses tornam-se inevitáveis, com o risco de perdermos de vista a realidade das instituições implicadas com seus diferentes profissionais e, é claro, as especificidades de cada criança no seu desenvolvimento psicoafetivo, que sejam autistas. Reconheço que meu parêntese foi longo; mas ele procura dar a medida da complexidade da questão tratada.

Na França, ao longo dos últimos cinco anos, percebe-se que estas discussões, que por vezes viram disputas passionais, desdobram-se em dois momentos, sendo que o segundo não anula nem se opõe ao primeiro.

Num primeiro momento, a psicanálise foi o alvo de ataques, com tentativas de desacreditá-la por todas as vias possíveis: vimos médicos-psicanalistas de renome sendo acusados pela Secretaria do Estado Nacional, apoiada pela Alta Autoridade de Saúde (instância de expertise) e por algumas associações de pais de autistas, de estarem "maltratando" as crianças com o uso de uma técnica terapêutica, administrada há 20 anos, com a autorização dos pais da criança, e que produz efeitos positivos cientificamente corroborados.

Segundo parêntese: vejam, mais uma vez, as incoerências e violências que se têm produzido neste debate em torno do autismo: o "maltrato" denunciado por uma instância política (a Secretaria do Estado), apoiada por algumas associações de pais, é um ato que além de atacar vários profissionais da saúde e da educação que orientam suas práticas a partir da psicanálise, é também um ataque contra tantos outros pais, que confiam a eles seus filhos. O que se reivindica é o emprego de outras técnicas utilizadas por outros profissionais que participam do movimento, baseando-se em pesquisas e experiências em outros países e acusam a França de retrógrada e atrasada.

Desde então, a psicanálise não é mais recomendada pelas instâncias ministeriais para o tratamento do autismo. Mas recomendação não é interdição. Por isso, no ano passado, alguns deputados, sempre apoiados por algumas associações de pais de crianças com autismo, votaram uma lei que deveria interditar, de uma vez por todas, qualquer referência à psicanálise no tratamento do autismo, projeto de lei que, felizmente, foi recusada pela maioria parlamentar, sustentada por outros tantos pais. Cabendo sempre lembrar que, num regime democrático, o mínimo que se deve preservar é a liberdade de escolha, inclusive terapêutica, para quem quer que seja.

Mas este ano, e aqui vem o segundo momento que mencionei, o debate "enriqueceu-se" com outras concepções, não necessariamente terapêuticas, mas com preocupações propriamente etiológicas, ou seja, a repeito da causa do autismo. O melhor exemplo é o processo na justiça lançado pela Association Autisme Vaccinations contra quatro laboratórios, produtores da tríplice vacina BCG. Esta controvérsia inicialmente científica, bastante contestada, já existe há vários anos nos Estados Unidos, e chega com força na França, num contexto em que a Ministra da Saúde, Agnès Buzyn, pretende passar para onze o número de vacinas obrigatórias, em vez de três como é o caso atualmente. A acusação desta Associação constituída por pais é que até os dois primeiros anos de vida seus filhos estavam se desenvolvendo normalmente, mas que teriam se tornado autista depois da administração da dita vacina.

Aut-ismo: em grego antigo autos, que em latim corresponde a ipse, ou seja, "si-mesmo", enquanto o -ismo se refere ao processo patológico. Na atual conjuntura é difícil prever como a preocupação e atenção de tantos héteros pelo o "si-mesmo" em questão vai evoluir, e sobretudo quais serão suas consequências.

Em meio a este imbróglio, somos vários os implicados, nas dimensões educativa e terapêutica, no acompanhamento de pessoas com autismo e de suas famílias. Uma causa de grande pertinência não unívoca nem totalitária pode ser lida no último número do correio da APPOA organizado pelo colega Nilson Sibemberg de fácil acesso: appoa.com.br/correio/edicao/266/sumario/442.  

Alfredo Gil é psicanalista em Paris; membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e da Association Lacanienne Internationale (ALI). E-mail: alfredo.gil@wanadoo.fr


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