Sul 21 | 12 de junho de 2017

Homens com e sem vergonha

12 de junho de 2017
Autor(es): Alfredo Gil

A crise da subprimes de 2008 produziu catástrofes que se pagam ainda hoje (a situação da Grécia é o melhor exemplo) e, a partir dela, no intuito de que outras crises do mesmo tipo não aconteçam, pretende-se, desde então, moralizar a finança, a economia. Mais recentemente, na França, a dita moralização estende-se à vida política; seria mais correto dizer, à vida dos homens políticos. Sem entrar em considerações filosófico-religiosas que a noção de moral implica, seriam imorais nossos homens políticos ? Pois, na finança neoliberal, a questão nem se coloca a respeito dos homens que (des)regulam o mercado financeiro. Leiam "O lobo de Wall Street" (editora Presença, 2010) em que Jordon Belfort conta sua história de corretor durante os anos de orgia financeira, que, o leitor verá, encontra na orgia libidinal seu suplemento.

Na França, depois do escândalo de François Fillon, que "empregou" mulher e filhos, assim como fizeram vários outros políticos, o novo Ministro da Justiça lança seu projeto de "moralização da vida política". O que esse debate, junto com o affaire Fillon, trouxe à tona ? A conclusão de que não é necessário ter vergonha por ter um comportamento que não respeite a moral pública, desde que se faça o mea-culpa, como no caso de Fillon, e respeite a lei, é claro. Ou seja, a falta de moralidade não implica ilegalidade.

Esse "sem vergonha" com culpa me trouxe à lembrança o filme Shame. Acontece que um colega psicanalista que organiza na universidade sessões de debate a partir da projeção de filmes, propôs outro dia o filme do cineasta Steve MacQueen, Shame, que é uns dos meus preferidos de 2012. Já o tendo assistido algumas vezes, cheguei para a discussão, mas abandonei e caí fora na primeira hora. Achei lamentável como meu colega, e seu convidado debatedor, patologizaram ao extremo o protagonista do filme, por quem tenho muita simpatia, Brandon. Este sofria nas mãos (devo dizer na escuta) destes psis com seus jargões: adição sexual, borderline, fragilidade narcísica, sem esquecer da clivagem que alimentaria sua perversão.

De fato, o excelente Michael Fassbender, para encarnar Brandon, esteve em contato discutindo com homens que sofriam de dependência sexual para melhor encenar seu papel, e Steve MacQueen encontrou aí a fonte do seu roteiro. Acontece que toda obra foge de seu criador. Assim, independentemente das intenções e motivações deste, sua criatura revela faces que lhe escapam, e merecem também ser contempladas.

Há tempo que me intrigam as reações que Brandon suscita no público, a grosso modo são reações de dois tipos: uma, de repúdio, pela maneira como ele "objetalizaria" seu semelhante, e, a outra, a variante "profissional" de alguns colegas, que o diagnosticam, como dizia antes. Mas talvez haja outras razões que fazem com que Brandon nos desacomode e incomode. Duas delas, e que estariam ligadas, são o sofrimento e o amor, ou melhor, o sofrimento sendo fruto de sua incapacidade de amar, explicando, assim, suas dificuldades afetivas nas relações sociais, que o reduziriam aos diferentes tipos de descargas sexuais compulsivas, que assistimos ao longo do filme, sejam onanistas - sob a ducha ou no wc de seu trabalho -, sejam acompanhadas pelas parceiras, por vezes venais.

Mas o que nos incomoda talvez sejam ainda outras coisas, bastante ordinárias e de tal forma explícitas em Brandon que não levamos em consideração. Primeiramente, queiramos, ou melhor, aceitemos ou não, é o perfeito equilíbrio entre suas exigências plusionais privadas e a face pública da sua vida que ilustra um verdadeiro e charmoso gentleman. Não somente porque é um homem que nunca derroga as regras e códigos sociais, o que seria fácil para qualquer perverso, mas porque participa das trocas sociais espontaneamente, sem muito esforço, para além do âmbito profissional, entre amigos, nos restaurantes e bares. Sua elegância, respeito e leveza saltam aos olhos comparados com as atitudes do seu chefe, cuja vulgaridade, com as mulheres, mas não somente, é uma constante.

Ora, o dito equilíbrio só será abalado com a chegada da irmã Sissy (Carel Mulligan) que acampa em seu apartamento inusitadamente, ela, bastante desequilibrada no seu esforço de amar e de ser amada. E aí talvez haja um outro aspecto que tanto nos incomode, qual seja o fato de nosso protagonista resolver bem a equação entre amor e desejo sexual - equação que é frequentemente fonte de desconforto e conflito para tantos homens (e mulheres, mesmo se diferentemente), sendo causa muitas vezes de sofrimento, o que, para Brandon, até o surgimento da irmã, não é, de modo algum, o caso. Em outros termos, na sua vida quotidiana, mesmo que seja inconscientemente, ele não busca conciliar amor e desejo sexual, pois trata de saciar, ainda que compulsivamente, unicamente o desejo sexual, sem nunca, insisto, desrespeitar a liberdade, o consentimento ou mesmo as exigências do parceiro. Nesse sentido, o que incomoda o público que o qualifica de dependente-sexual é que de fato, Brandon não é "dependente" do que quer que seja, pois seu individualismo funciona em perfeita homeostase com seu contexto nova-iorquino.

Ao contrário, ele não depende de nada nem de ninguém. Por isso, aliás, se nós, terapeutas, e psicanalistas dependêssemos do sofrimento de "Brandons" para garantir nosso exercício profissional estaríamos talvez desempregados. Quero dizer que amar não faz parte do seu repertório relacional, sem que, no entanto, contrariamente às analises que li ou escutei, tenhamos uma "fera" sexual, monstruosa, desafetada, e que disso sofreria. Prova da sua humanidade (que seja judaico-cristã) encontramos na segunda metade do filme, com seu acesso de vergonha, o Shame, causado certamente pelo espelho que a presença da irmã reflete em sua vida, e que o leva a um gozo desenfreado tentando esgotar sua existência e evacuar angústia e culpabilidade na sequência orgástica dos últimos longos minutos do filme, seja grupal ou homossexual. A mecânica do sexo não poderia ter o melhor tom que nas Variações Goldberg de Bach, interpretadas por Gleen Gould.

Permitam-me ter preferência: se tivesse que escolher, como vizinho, entre Fillon e Brandon, de longe escolheria este.

 

Alfredo Gil é psicanalista em Paris; membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e da Association Lacanienne Internationale (ALI). E-mail: alfredo.gil@wanadoo.fr

 


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